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Imagine só essa cena “hipotética”: o Palmeiras jogando mal, um futebol tão anódino que a minha cabeça começa a vagar — e logo encontra repouso no que procurava. E de repente, não mais que de repente… vejo uma imagem. E o sorriso que vejo ali transmite uma sinceridade tão grande, tão luminosa, tão verdadeira, que é impossível não me contagiar.
Mesmo que fosse no meio do ataque do time adversário, mesmo que saísse gol, nada abalaria aquela felicidade compartilhada. Talvez eu apanhasse da minha própria torcida — achariam que eu era infiltrado — mas apanharia sorrindo.
É que existe uma alegria inocente quando duas almas se reconhecem imediatamente, se tocam ainda que sem contato: a mesma que sinto quando olho para o meu sobrinho, e ele para mim. Aquele tipo de felicidade que não precisa se justificar — apenas acontece.
E havia ali uma nuance que me escapava, mas não se escondia: a força da mulher que conhece o instante exato entre a pudico e a feminilidade, entre a delicadeza e a sensualidade, entre o gesto e o brilho do olhar, ainda que de soslaio.
Era isso que me fez sorrir.
Porque, mesmo em um momento tão íntimo nosso — o futebol; talvez uma viagem; ou um sonho; ou mesmo a ausência deste sonho — a felicidade do outro tem o poder de nos atravessar.
Eu me sinto responsável por quem eu toco de alguma maneira. Como se a raposa do Pequeno Príncipe me sussurrasse ao pé do ouvido, em forma de consciência:
“Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.”
E isso me obriga a estar bem.
Não por mim — mas porque a minha sombra, o meu silêncio, a minha tristeza poderiam influenciar aquilo que tenho de mais belo e, talvez, outras pessoas também.
Pensei que, naquele instante, um chocolate da Cacau Show, uma daquelas trufas cremosas, recheadas, seria perfeito para compartilhar em dois.
Como seria bom dividir: eu comendo uma parte, ela outra, ao mesmo tempo — a ganache de chocolate escorrendo pelo calor suave de nossas bocas; o contraste entre o doce e o salgado; o sabor misturado ao afeto… produzindo um sabor que nem o Ale Costa, nem o Willy Wonka e todo seu exercíto de oompa loompas, saberiam reproduzir.
E então me lembrei de Ulysses, de Joyce, e da relação de Leopold Bloom com Stephen Dedalus: um vínculo espiritual, simbólico, quase paterno; Bloom como o Telêmaco, filho de Ulisses, O Odisseu, da versão joyciana.
Eu acredito nisso.
Mesmo não sendo pai biológico de nenhuma criança, sei que uma criança que ainda vai nascer pode, um dia, olhar para mim — já crescida — e ver um exemplo, uma singularidade, algo diferente que possa influenciá-la positivamente por toda a vida.
É possível que, quando eu vir essa criança, eu fique meio bobo, estupefato, paralizado de felicidade: aquele sorriso que nasce sozinho, como quando olho para o meu próprio sobrinho.
Essa criança que nem nasceu já me desperta uma alegria difícil de nomear.
Talvez seja uma ligação espiritual — como a de Bloom com Dedalus.
Talvez seja também o nascimento simbólico de mim mesmo, do meu crescimento, da minha evolução.
E é impossível que meu coração não se encha de felicidade e carinho diante disso.