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Devo agradecer ao Deus dos escritores por criar as circunstâncias ideais para que eu escrevesse este texto — e sobre este tema.
Gosto muito daquele episódio escrito pelo Gregório Duvivier em que ele sai perguntando para todo mundo se acham que ele se parece com o Marlon Brando — e todos, movidos por pura gentileza, garantem que ele não lembra em absolutamente nada: nem no rosto, nem no charme, nem no talento.
A distância entre mim e Gregório é da mesma natureza, só que um pouco maior.
Nunca havia lido um poema ou escrito dele na vida até hoje — apenas uma crônica — e isso foi suficiente para que eu não sentisse vontade de ler seu poema. Mas conheço o humor dele, porque temos algo íntimo em comum: o terreno do cômico.
Consumíamos Porta dos Fundos em épocas que, felizmente, já passaram. Eles produzem muito, mas sem manter a qualidade, e isso me cansou. Imagino que deva ter parado de acompanhar por volta de 2014.
Mesmo assim, acompanhei uma série depois e sempre preferi os making of: é ali que aparece o processo — algo que só quem gosta de audiovisual, como eu, entende.
Nesses bastidores, vi Gregório recitando, em francês, trechos de “L’Albatros”, de Baudelaire — e ali ficou evidente que ele teve a melhor formação possível: família abastada, educação sólida, domínio de línguas, repertório clássico.
O humor do Porta é engraçado, mas nitidamente machista; humor feito por homens, para homens, com o olhar do homem. É impossível, como homem cis, não rir. Mas se for humor escrachado, eu sempre irei preferir o trash-cômico do Hermes e Renato.
O meu humor é outra coisa.
Literário.
Feito de cultura pop, nonsense de internet, temperado a
moda de Kafka, ironia britânica à Monty Python e frito no azeite de Machado de Assis.
O que Gregório faz muito bem, eu não saberia fazer.
O que eu faço bem, ele não faz.
Somos universos distintos — inclusive na aparência.
Eu não atuo.
E ele não tem meu percentual de gordura.
Eu não escrevo poemas nem contos; ele não escreve minhas resenhas de filmes, nem meus artigos culturais e sociais.
Quando li o texto dele sobre o transtorno amoroso causado pelo término com Clarice, a diferença ficou clara. Talvez ainda mais evidente para quem lê nós dois. Embora, sinceramente, eu não entenda alguém ler meus textos e depois ir ler Duvivier — mas tudo bem.
E foi vendo os making of que notei algo com o meu olhar de diretor que Gregório não percebeu:
vi os olhos de Clarice brilhando para o Ian, diretor do Porta.
Ali, tive uma intuição: Gregório já tinha perdido.
Se Ian fizesse um gesto, um sinal, ela faria tudo o que ele quisesse.
Eu reconheço esse olhar feminino a quilômetros.
Dito e feito. O episódio aconteceu: ela trocou Gregório por Ian.


Era previsível.
Gregório ficou com Clarice na adolescência; viveram pouco, quase nada. É natural que, quando surge alguém que é o oposto completo, a atração se torne inevitável.
Todo homem tem seu oposto — até mesmo eu.
O oposto de mim é simples: músculos, força bruta, tatuagem, menos educação formal, desejo carnal explícito, intensidade física. Talvez até uma barriga de cerveja, balada, impulsividade, aquela virilidade primitiva que tantas mulheres reconhecem antes mesmo de entender.
E tudo bem.
Se eu fosse traído pelo meu oposto, não diria nada sobre mim — mas sobre a outra pessoa.
Traição é sintoma do que faltou no relacionamento, não do que faltou em mim.
A má notícia para ela — e boa para ele? — é que esse estereótipo masculino, quando se apaixona, não sabe lidar com emoção.
A virilidade vira ciúme.
A intensidade vira apego.
A força vira agressividade.
A insegurança vira violência.
É assim que ocorrem os feminicídios.
Nesse sentido, eu sou Gregório: se me traíssem, minha reação institiva também seria escrever.
No máximo, isso: palavras.
Mas a diferença é simples:
se eu escrevesse sobre minha dor,
meu texto seria melhor.