MELODIA A.M.
DAVELEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BR"Melody A.M." não é apenas o nome de um álbum de uma Duo de música eletrônica norueguesa, Röyksopp — cuja melhor faixa, Sparks, carrega um simbolismo que se encaixa com precisão na história que estou prestes a narrar. “Sparks”: faíscas, centelhas, chamas. Tudo aquilo que começa pequeno, mas pode incendiar uma madrugada inteira.
O título me veio primeiro por isso — mas também pela palavra melodia, que me leva a La Valse de Melody, de Serge Gainsbourg, música que, aliás, estará na capa do meu site para quem desejar ouvir enquanto lê.
E, claro, por A.M.: a sigla da manhã, a hora em que escrevo este texto, acordado no meio da madrugada, com pensamentos que insistem em não me devolver ao sono.
Mas A.M. é, sobretudo, a sigla da maneira como chamei uma pessoa especial.
Alguém que me indicou Call Me By Your Name (Me Chame Pelo Seu Mome) naqueles antigos pedidos “à la carte”, e foi por causa dela que escrevi uma resenha — aquela mesma que chamei de modo performático, ainda que jamais preconceituoso, de UM FILME “GAY” QUE ME MARCOU, que quem quiser pode ler pelo link abaixo:
https://www.recantodasletras.com.br/resenhasdefilmes/8031819
Esse parenteses em "Gay" é importante.
Revisitei o texto agora, de madrugada, e percebi algo que me escapou na época: eu deveria ter falado dela. De nós. Do momento compartilhado que aquilo representava.
Mas eu o usei como pretexto para falar de outra pessoa — alguém que não me fez viver experiências novas, mas, ao contrário, me impediu de vivê-las, como essa.
E, de súbito, tudo ficou claro.
Lembro que A.M. não elogiou a resenha (e ela tinha bons motivos). Hoje entendo: o que ela criticou não foi a escrita — mas a ilusão.
Eu, naquele instante, coloquei a minha fantasia acima do que havia de real entre nós: aquele momento que só existiu porque ela o provocou.
O filme fala de alguém mais jovem que se apaixona por alguém mais velho; alguém que se deixa conduzir, vulnerável, aberto.
E por mais que eu, modéstia à parte, seja mais exótico, mais atlético, talvez até mais culto (e certamente mais engraçado e menos velho) do que o Oliver… — que não sei por quê, me faz lembrar do João Kleber e daquele tempo de “Testes de Fidelidade”, não que eu já tenha visto, a não ser escutado de ouvido, como tipo uma lenda, por ter vivído aquela época —. Mas a verdade é que ali havia uma assimetria bonita. Uma troca.
Ela — mais interessante, um pouco menos jovem, e objetivamente mais atraente que o jovem Elio do filme (no sentido platônico de beleza em Fedro).
O curioso é que, no filme, o mais velho conduz.
Conosco, aconteceu o inverso: era ela quem me ensinava. Era ela quem eu admirava mais do que ela a mim.
E então percebi: aquele episódio da nossa ruptura simbólica — que na época me pareceu desproporcional — era apenas ela dizendo, com elegância:
“Não coloque sua ilusão acima do que é nosso.”
Hoje, às quase quatro da manhã, ou mais apropriadamente A.M, entendo.
E é por isso que este texto é um pedido de desculpas retroativo — atrasado, mas sincero.
Porque a única melodia que ressoa agora, enquanto termino de escrever, é A.M.
A música que acorda antes da luz.
A sigla que ainda acende faíscas.
A lembrança que permanece acesa — mesmo depois da madrugada.