O DESEJO ME TORNA TÃÃÃO VULNERÁVEL
DAVELEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BR
O desejo sempre me deixa menor do que realmente sou — não no sentido frágil, mas no sentido profundamente humano.
Há dias em que quase sinto inveja daquela sensualidade natural que as mulheres carregam, como se elas tivessem descoberto um modo secreto de caminhar entre admiração, emoção, afeto… e ainda assim manter o corpo em silêncio.
Nós, homens, raramente temos esse luxo.
Admiramos, logo desejamos.
Um axioma quase biológico, tão inevitável que, se eu soubesse latim com fluência suficiente, gravaria essa sentença antiga na própria pele.
O corpo masculino é explícito demais para ser discreto.
Às vezes basta um pensamento que não pedi, e a calça se comporta como se tivesse vontade própria — um gesto involuntário, quase constrangedor, que não anuncia vulgaridade, mas sim vulnerabilidade.
É curioso: o mundo tolera com facilidade o celibato masculino, mas raramente reconhece as renúncias que o homem faz do próprio desejo.
E, por empatia às mulheres — e pelas razões óbvias que não preciso explicar — reconheço que essa assimetria ainda é injusta.
No meu processo interminável de evolução, compreender o desejo feminino tornou-se mais urgente do que compreender o meu próprio.
O mundo sempre descreveu o erotismo através dos olhos dos homens: gestos, posições, roupas, lingeries, narrativas, símbolos de submissão.
Mas existe um outro modo — um ponto de vista que me educou.
A cineasta erótica Érica Martins, por exemplo, produz filmes voltados para mulheres.
Ali, as cenas não obedecem ao prazer masculino, mas à cadência emocional feminina:
o tempo, o toque, a respiração, a confiança.
Aprendi que uma mulher precisa, em média, de quinze minutos a mais para se excitar do que um homem.
E muitos encontros acabam antes mesmo de começarem.
Entendi que a preliminar não é um ato isolado, mas um clima que começa no restaurante, no cardápio escolhido com cuidado, no elogio enviado no dia seguinte, na preocupação silenciosa:
“Você quer água?"
E, modestamente, se ela passasse a noite comigo, eu me asseguraria de que precisaria se hidratar muito - pelos líquidos que perderia.
Não por força, mas por entrega.
Não por desempenho, mas por devoção.
Porque é nessa fronteira entre desejo e ternura que o sexo deixa de ser ato e vira memória.
E sim — o carinho voraz com que eu tiro sua roupa também faz parte disso.
Mas a ternura depois do prazer… faz ainda mais.
Talvez por isso filmes como
O Império dos Sentidos,
9 Canções,
Azul é a Cor Mais Quente
me toquem tanto.
Neles, o sexo vira linguagem, e a linguagem vira casa para o desejo.
Não são obras sobre corpos; são obras sobre almas tocando devagar.
É o oposto dos delírios masculinos de Gaspar Noé em Love ou de Lars Von Trier em Ninfomaníaca - cineastas que admiro, que fizeram filmes que admiro, como Enter the Void e Dançando no Escuro. Mas também esses filmes abjetos, à maneira de Bertolucci em Último Tango em Paris.
Desde os primórdios, os filósofos desconfiaram do desejo.
Para Platão, ele distorcia a realidade.
Para Schopenhauer, ele escravizava o espírito; ao contrário da arte, da representação, que o liberta.
Aristóteles, sempre o opositor afetuoso, dizia o contrário: que a arte é a representação lúcida da vida.
Depois vieram Nietzsche e Freud, afirmando que o desejo é força, expressão, expansão — algo que deve ser compreendido, não negado.
Talvez por isso eu escreva assim:
com intensidade, mas também com delicadeza;
com fome, mas também com cuidado;
com ardor, mas também com escuta.
Porque o que me move não é o meu desejo.
É o desejo feminino — esse território sutil, espiritual e corporal onde mora a verdade do encontro.
Escrever, para mim, é isso:
uma tentativa de tocar o riso,
de honrar o desejo,
de iluminar a alma —
mesmo quando não posso tocar a pele.