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Existe uma crença popular — e quase religiosa — de que Shakespeare foi um grande defensor do amor romântico. Mas, quando olhamos com cuidado, percebemos que ele não acreditava nisso. Pelo contrário: Shakespeare enxergava o amor como um desajuste do espírito, uma perturbação da ordem.
Romeu e Julieta nunca foi, de verdade, uma história de amor. Sempre foi uma crítica. Uma tragédia construída para mostrar o que acontece quando dois jovens entregam o destino inteiro a um sentimento frágil, volátil, intempestivo.
Romeu, aliás, estava apaixonado por Rosalina — apaixonado mesmo — até, algumas horas depois, jurar amor eterno para Julieta, filha da família rival. Shakespeare não faz isso por acaso. Ele está nos dizendo: a paixão é súbita, cega, irracional — e profundamente perigosa.
O amor romântico, nessa leitura, era visto como uma espécie de febre: um delírio que dura meses, talvez um ano — exatamente o que hoje chamamos de paixão. O casamento, por sua vez, sempre foi uma instituição baseada em ética, dever e aliança familiar — não em arroubos emocionais.
A sociedade cristã inverteu essa lógica: casamos por amor e, como fruto desse amor, valorizamos as crianças. Mas isso é recente. Muito recente.
Na Idade Média e no Renascimento, a mortalidade infantil era tão alta que ninguém se permitia idealizar a infância. Montaigne fala disso com uma franqueza quase brutal: diz que perdeu vários filhos, como quem comenta uma dor que já não tem mais lágrimas. A ama-de-leite, e não os pais, era quem se apegava às crianças — porque corria o risco de criá-las para a morte.
É apenas mais tarde que as crianças se tornam preciosas. E que o amor vira justificativa de vida, cujas crianças, fruto e reflexo desse amor, se tornam sagradas, pois semente e herdeiras dos pais.
Em Hamlet, Shakespeare vai ainda mais fundo. Ali não há amor romântico. Não há paixão salvadora. O que há é injustiça, luto, traição e uma dor que ninguém entende — e que todos preferem chamar de loucura.
O rei é assassinado pela própria esposa e pelo cunhado. Hamlet veste preto, anda cabisbaixo, rejeita a corte, despreza festas. E quando o acusam de melancolia doentia, ele responde com a frase que define toda a filosofia moderna:
“Há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia.”
Hamlet é chamado de louco — mas tem método em cada gesto. É um dos primeiros existencialistas da literatura. Ganha todos os duelos verbais. Só perde para a morte, que ironiza ao colocá-lo frente ao coveiro, o único personagem capaz de vencê-lo no discurso.
Não há poemas de amor escritos por Hamlet. Não há amada. Não há esperança romântica. Há, sim, uma inteligência ferida, um homem esmagado pela sensação de que o mundo perdeu a ordem moral.
E, diante disso, ele se refugia no que sempre consola os deslocados: a leitura.
A rainha tenta ridicularizá-lo quando diz: “A leitura é a única distração desse infeliz.” Mas é ali, nesse hábito nobre e silencioso, que Hamlet encontra sentido — ou ao menos um intervalo para respirar.
Shakespeare não condena o amor. Ele apenas o desnuda, tira o verniz, expõe a fragilidade.
Mostra que paixão não sustenta destino.
Mostra que famílias ruem quando esperam que o amor resolva aquilo que deveria ser resolvido com coragem.
Mostra que a leitura, a filosofia e o pensamento crítico salvam mais vidas do que promessas românticas.
Mostra, enfim, que o sofrimento de Hamlet — esse homem que pensa demais, sente demais e fala pouco — ainda ecoa em nós.
Porque, no fundo, todo leitor sensível entende essa verdade silenciosa:
o amor é bonito, sim — mas raramente é justo.