WOODY ALLEN, SINÔNIMO DE NOVA IORQUE; EU, SÃO PAULO!

Alguns filmes têm a estranha capacidade de nos revelar quem somos — mesmo quando não era essa a intenção do diretor. No meu caso, isso sempre acontece com Woody Allen.
Em Annie Hall — que no Brasil recebeu um dos títulos mais perfeitos da história da tradução, Noivo Neurótico, Noiva Nervosa — Allen interpreta Alvy Singer, um roteirista de TV que se apaixona pela luminosa Annie, vivida pela maravilhosa Diane Keaton.
Allen é tão bom interpretando a si mesmo que parece impossível separar personagem e pessoa. Ele é o nova-iorquino por excelência: neurótico, irônico, criado no Brooklyn, meio deslocado, apaixonado por cultura, jazz, Freud, Dostoiévski e — claro — por mulheres interessantes e
bonitas.
E é impossível não reconhecer nesse retrato algo muito familiar para mim.
O que Nova Iorque faz por Woody Allen, São Paulo fez por mim.
As bibliotecas públicas, os museus, a Avenida Paulista, o Festival Internacional de Cinema, os cafés, a mistura infinita de pessoas… tudo isso moldou quem eu sou — do mesmo modo que a Manhattan dele moldou o homem que ele se tornou.
E também tem a parte prática: trabalhar cedo, viver entre estações (ambos não dirigimos), livros, estudo, treino, disciplina e uma rotina que depende inteiramente dessa geografia. Se eu não morasse perto de uma academia completa, se não estivesse a poucos minutos do estádio do Palmeiras (meu equivalente emocional aos Knicks dele), se São Paulo não fosse esse caos organizado… talvez eu também fosse outra pessoa.
A diferença é simples: eu ainda tenho cabelo, sou mais alto, mais bonito e mais atlético que o Woody.
Mas ele é rico e famoso — então estamos empatados. E ambos nunca ganharemos um Oscar.
Em Annie Hall, há uma cena emblemática: Allen tenta reviver o romance indo para Los Angeles. Mas tudo dá errado — porque uma alma nova-iorquina não funciona sob o sol ensolarado e superficial de Hollywood.
É quase impossível não rir da tentativa: ele, que nasceu para a névoa de Manhattan, tenta sobreviver entre palmeiras, luzes estouradas e um estilo de vida que simplesmente não combina com seu coração.
Eu entendo perfeitamente.
É como imaginar eu morando no Rio de Janeiro.
Eu acho invulgarmente sexy as turistas de fio-dental, as praias exuberantes, a paisagem paradisíaca, essa vibração de verão eterno — claro que adoro. Mas não é minha natureza. São Paulo é cinza, frenética, profunda, inquieta… e eu também.
A vida precisa de beleza.
E de humor.
E de uma certa ousadia litorânea que lembre a gente de que o mundo não é só concreto.