× Capa Textos Áudios E-books Fotos Perfil Livro de Visitas Contato Links
DAVE LE DAVE
SIM, ELE MESMO
Textos


A CIDADE DOS SONHOS 

 



DAVELEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BR

 


 

LOS ANGELES E O MITO DO SONHO

Los Angeles é a cidade dos sonhos. A música que coloquei hoje na capa do meu site fala exatamente disso — e você pode ouvi-la depois que terminar este texto. É a cidade que fabrica fantasias por encomenda: Hollywood, as luzes de Beverly Hills, o sonho à beira do pier de Santa Monica, o glamour ensolarado da Califórnia.

 

E há também Orange County — o famoso O.C. — pertinentemente traduzido no Brasil como Um Estranho no Paraíso. Não por acaso. Foi ali que muitos brasileiros conheceram Seth Cohen, personagem com quem sempre me identifiquei: deslocado, inteligente, meio fora do eixo, até encontrar sua “Summer” — literalmente, o verão que acende a vida.

 

E Ryan, seu irmão adotivo, vivendo na casa da piscina, apaixonado pela problemática e linda Marissa, não mais problemático do que ele mesmo, claro. Um casal perfeito.

 

Mas… não é dessa Los Angeles que quero falar.

 

Quero falar da outra.

Da Los Angeles subterrânea, simbólica, onírica.

Da Los Angeles que não vende sonhos — mas expõe as rachaduras deles.

 


 

A LOS ANGELES DE DAVID LYNCH

Entre todos os filmes que tentaram traduzir essa cidade, um só capturou sua alma inteira: Mulholland Drive, de David Lynch.

 

Um dos dois longas eleitos pela Cahiers du Cinéma — a revista mais influente da história, berço de Godard e Truffaut — como os maiores do século XXI, ao lado de Fale com Ela, de Almodóvar.

 

É um filme difícil, estranho, perturbador e absolutamente hipnótico.

Não é feito para agradar — é feito para revelar.

 

Se você não puder assistir, não tem problema.

Eu te conto o essencial.

 


 

O SONHO... E A FISSURA

Lynch trabalha sempre no encontro entre o psicológico e o surreal, entre o absurdo e o sonho. E o título em português, Cidade dos Sonhos, já entrega a pista: nada ali é o que parece. Nada é inteiro. Nada é estável.

 

No começo, acompanhamos uma mulher loira — talentosa, confiante, apaixonada pela arte e pelo cinema. Ela parece destinada ao sucesso, ao amor, à vida perfeita de Hollywood.

 

Ela tenta ajudar uma outra mulher, morena, misteriosa, frágil, por quem sente uma atração que vai além do simples cuidado. Tudo parece belo, delicado, quase romântico.

 

Bom demais para ser verdade.

E é.

 

Logo percebemos que talvez tudo isso seja apenas o sonho de uma atriz fracassada, desempregada, rejeitada em testes, e também rejeitada no amor pelo próprio diretor que, na vida real, escolheu justamente a mulher por quem ela fantasia cuidar.

 

Mulholland Drive é um espelho quebrado: o que se sonha, o que se deseja, o que se perdeu, o que nunca existiu — tudo misturado.

 


 

A FUNÇÃO DA ARTE E DO IMAGINÁRIO

É isso que Hollywood faz.

É isso que a Disney faz.

É isso que a literatura faz.

 

Transformam o mundo real em algo mais compatível com nossos sonhos.

 

Como dizia André Bazin, crítico da Cahiers du Cinéma:

 

“O cinema é a tentativa humana de dar forma ao que desejamos que fosse verdadeiro.”

 

A arte sempre foi essa ponte entre a realidade e o desejo.

 

Por isso Lynch incomoda: ele mostra o que está por baixo da fantasia.

Por isso a Disney encanta: ela mostra o que desejamos que estivesse por cima da realidade.

 

E entre essas duas cidades — a dos sonhos vendidos e a dos sonhos desfeitos — é que vivemos, amamos, imaginamos e interpretamos o mundo.

 

 

 

 

 

 

 

ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL)
Enviado por ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL) em 15/11/2025
Alterado em 15/11/2025
Comentários