
Eu aviso desde já: este texto vai ser longo.
Mas, convenhamos, tudo o que é realmente bom a gente não quer que acabe.
O meu compromisso — ou a minha deliciosa intenção — é fazer com que você nem perceba o tamanho (do texto, claro, e do tempo que não passa — apenas acontece).
Que leia segurando a minha mão em cada linha, como quem se deixa conduzir sem pressa, até que, lá no fim, cheguemos juntos ao mesmo lugar: o deleite.
E aqui já começa uma verdade que poucos homens entendem (e muitos preferem ignorar):
o desejo feminino é uma obra lenta, artística, quase arquitetônica.
Enquanto um homem alcança o ápice em minutos, a mulher precisa de tempo — sangue, pensamento, sensações — um ritual silencioso que dura pelo menos quinze minutos para florescer inteiro.
Só um homem insensível termina antes da mulher ter começado.
E dorme.
E ronca.
E vira, sem vergonha nenhuma, de costas para a protagonista da criação.
Nietzsche diria que isso é uma falha espiritual — e estaria certo, com seu bigode e seu amor pelas montanhas.
A diferença entre nós é simples: ele não acreditava em Deus. Eu acredito — não na religião, mas no Todo.
Porque quando duas pessoas se encontram e sentem aquela faísca estranha —
“eu já conheço essa alma, mas não sei de onde” —
não é acaso.
É roteiro.
É o invisível escrevendo certo por linhas tortas, enquanto os dois ainda não sabem ler o próprio destino.
É por isso que, às vezes, mesmo desconhecidos, duas pessoas sorriem uma para a outra de modo inexplicavelmente familiar.
Como crianças que se reconhecem antes das palavras.
E talvez — ouso imaginar — Deus sorria junto e pense:
“Ah, esses dois… não fazem ideia do que ainda está por vir.”
Quando, mais tarde, tudo parece encaixar como se mãos invisíveis estivessem empurrando dois estranhos na direção certa…
Isso é Deus, o grande roteirista.
O Verbo.
A Palavra.
E a sua magnus opus foi a mulher.
Criar algo tão belo exauriu tanto Sua energia que Ele precisou descansar um dia inteiro.
E viu Deus que era bom…
E descansou satisfeito.
Mas voltemos à metamorfose de Nietzsche.
Do camelo que suporta…
ao leão que enfrenta…
até a criança que renasce, vê tudo como se fosse a primeira vez e encontra alegria no que sempre existiu.
Meu sobrinho assiste ao mesmo desenho repetido — e ri todas as vezes como se fosse novidade.
Eu, adulto, faço o mesmo com Fale com Ela, A Grande Beleza…
Volto, repito, revejo.
Porque quando algo nos toca na essência, voltar é um prazer — não uma repetição.
E quando um sentimento retorna com essa força infantil…
é porque tocou o que há de mais verdadeiro em nós.
A arte faz isso.
A beleza faz isso.
O humor também — aliás, o humor é meu jeito de expulsar o espírito de gravidade da leitura.
Rir é um prelúdio perfeito do prazer: suave, inesperado, libertador.
E por falar em humor…
Humbert Humbert, de Lolita (no filme de Kubrick, o único que importa), perdeu a jovem não para alguém mais inteligente, mas para alguém mais leve — interpretado por Peter Sellers.
O cômico venceu o trágico.
É por isso que eu rio.
Que eu faço rir.
Porque a risada é tão inevitável quanto o êxtase — e tão íntima quanto ele.
E por mais completos que sejamos, sempre haverá alguém oferecendo à pessoa que desejamos aquilo que nos falta.
Vide Kaká — o genro perfeito — trocado na vida real porque ser “perfeito” nem sempre é o bastante.
Eu não controlo nada disso.
Só controlo o que sou, e o que posso oferecer. O que posso fazer é ser a minha melhor versão…
para que a mulher - hipotética, inexistente - que eu amo se sinta única.
Mas digo sem ironia:
se um dia minha mulher me traísse com alguém igual a mim…
eu nem ficaria triste.