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DAVE LE DAVE
SIM, ELE MESMO
Textos

 

NOTAS SOBRE UM AMOR DO PASSADO

 


 

DAVELEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BR

 


 

CONFISSÃO E VERDADE

Eu me arrependo de algumas coisas que escrevo, mas não do que faço.

Os erros são necessários para sermos quem somos — eu não gostaria de abandonar um ato depois de tê-lo cometido.

A minha escrita traduz justamente a sinceridade das minhas palavras, o meu estado anímico, aquilo que estou sentindo.

Eu não sou ator; não consigo fingir.

 

Como escrevo diariamente, fica muito claro o que passa na minha cabeça: angústias, decepções, medos, desejos, amores.

Às vezes tudo ao mesmo tempo, misturado, sem muita etiqueta — porque a linguagem é pequena demais para tanto afeto.

 

E nada do que eu escrevo — ou faço — é por acaso.

Nem mesmo batizar este texto como “notas”, à semelhança das notas do Homem do Subsolo, de Dostoiévski.

 

O que preciso dizer é que nada é mentira; ou, sendo honesto, que eu acredito piamente nas mentiras que conto, porque para mim são verdadeiras.

Se fiz um juízo de valor sobre alguém, é porque aquilo era verdadeiro para mim naquele momento.

 

Jamais escreveria algo com propósito calculado — magoar alguém, seduzir por estratégia, elogiar visando outra coisa.

A fidelidade que eu prezo é à própria escrita, à verdade do que estou sentindo.

Se me exaltei e disse coisas duras — ou belíssimas demais — foi porque realmente senti.

 


 

O CORPO, A PAIXÃO E ESPINOSA

Os afetos são infinitos e as palavras para descrevê-los são ínfimas.

Quando falo em amor soa verdadeiro, mas há muitos modos de amar: o platônico, o philia, o eros, o amor físico, o gosto vaidoso — e a paixão.

 

Para Espinosa, porém, tudo é paixão — um corpo apaixonado é apenas um corpo afetado pelo mundo.

Se a paixão é negativa, há diminuição da potência de agir — nasce a tristeza.

Se é positiva, nos alegra, nos amplia, faz-nos sentir mais vivos; e, se entendemos a causa desse aumento, chamamos isso de amor.

 

Nesse sentido, posso dizer que todas as minhas paixões foram verdadeiras — desde hobbies aparentemente banais até gestos íntimos dirigidos a pessoas.

Algumas foram mais fortes que outras.

 

Não é segredo: se você está aqui me lendo, é porque, em algum ponto, uma paixão do passado guiou meus passos por tanto tempo que me impediu de viver outras coisas boas.

Foi paradoxal: tanto me bloqueou quanto me ensinou.

Em termos gerais, foi frustrante e formativo ao mesmo tempo.

 


 

RECIPROCIDADE E FALHAS

Não tenho dúvida de que houve reciprocidade de sentimento — talvez intensa —, mas faltou ação.

Eu fiz muito; recebi pouco.

Quando tentamos nos aproximar de novo, nossas interações foram ruins.

 

E o mais amargo: a pá de cal foi perceber que, depois de anos me acompanhando, sabendo quem eu sou, eu não fui verdadeiramente conhecido.

Eu mostrava quem era — e não fui visto por inteiro.

 

É uma pena.

Nunca deixei de dar sinais de mim.

Ironia fina: a pessoa que tinha mais tempo, capacidade e intimidade para me conhecer foi a que menos soube retribuir.

 

Ainda assim, a rejeição dela, longe de me paralisar, foi matéria de construção: foi pela ausência — não pela presença — que me tornei quem sou hoje.


 

 

CLAREZA RECUPERADA

Algo que precisei acrescentar, porque só entendi muito depois: quando a conheci, eu não estava no meu melhor momento.

 

Os juízos do corpo influenciam o pensamento.

Um corpo cansado erra leituras.

Como diria Espinosa: a potência de agir altera a clareza de ver.

 

Hoje, saudável e lúcido, recuperei a capacidade de avaliação.

Vejo belezas que antes estavam ocultas, nuances que meu corpo exausto não alcançava.

É outra vida — e, finalmente, ela é minha.

 


 

ORGULHO, JOGOS E LIÇÕES

Ela é um ex-amor.

E há, claro, aquele jogo meio infantil de indiretas pós-término para ver quem “se deu melhor”.

Normalmente quem se dá bem é o amigo talarico do casal, sempre à espreita, só esperando a bola sobrar na pequena área para marcar o gol. De placa.

 

Mas para mim nunca foi sobre vitórias de vitrine.

O propósito sempre foi ser melhor — conquistar minha melhor versão.

E nisso, paradoxalmente, a rejeição ajudou mais do que qualquer presença.

 

Ainda guardo carinho e admiração por ela.

Não preciso dizer que ela me afeta; me afeta, sim, e foi especial.

Mas dizer que a amo hoje seria falta de respeito comigo, com ela e com tudo o que ainda pode vir.

 

Se eu a encontrasse, daria um abraço apertado, de carinho e despedida:

“Foi bom te conhecer. Eu te amei muito. Você foi importante na minha vida — talvez ainda seja, porque guardamos pedaços dos outros conosco. Mas este abraço é despedida.”

 

Eu te amo, amiga — não meu amor, não minha paixão.

Agora, adeus.

 



DESPEDIDA

Não guardo rancor. Guardo aprendizado.

Vou seguindo com a leveza de quem aprendeu a não confundir presença com pertença.

Obrigado por tudo — pelos pedaços que levo.

 

Mas agora vá e — como diria Noel Gallagher:

 

"Don't look back in anger"

 

 

 

 

 

ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL)
Enviado por ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL) em 13/11/2025
Alterado em 13/11/2025
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