NOTAS SOBRE UM AMOR DO PASSADO

Eu me arrependo de algumas coisas que escrevo, mas não do que faço.
Os erros são necessários para sermos quem somos — eu não gostaria de abandonar um ato depois de tê-lo cometido.
A minha escrita traduz justamente a sinceridade das minhas palavras, o meu estado anímico, aquilo que estou sentindo.
Eu não sou ator; não consigo fingir.
Como escrevo diariamente, fica muito claro o que passa na minha cabeça: angústias, decepções, medos, desejos, amores.
Às vezes tudo ao mesmo tempo, misturado, sem muita etiqueta — porque a linguagem é pequena demais para tanto afeto.
E nada do que eu escrevo — ou faço — é por acaso.
Nem mesmo batizar este texto como “notas”, à semelhança das notas do Homem do Subsolo, de Dostoiévski.
O que preciso dizer é que nada é mentira; ou, sendo honesto, que eu acredito piamente nas mentiras que conto, porque para mim são verdadeiras.
Se fiz um juízo de valor sobre alguém, é porque aquilo era verdadeiro para mim naquele momento.
Jamais escreveria algo com propósito calculado — magoar alguém, seduzir por estratégia, elogiar visando outra coisa.
A fidelidade que eu prezo é à própria escrita, à verdade do que estou sentindo.
Se me exaltei e disse coisas duras — ou belíssimas demais — foi porque realmente senti.
Os afetos são infinitos e as palavras para descrevê-los são ínfimas.
Quando falo em amor soa verdadeiro, mas há muitos modos de amar: o platônico, o philia, o eros, o amor físico, o gosto vaidoso — e a paixão.
Para Espinosa, porém, tudo é paixão — um corpo apaixonado é apenas um corpo afetado pelo mundo.
Se a paixão é negativa, há diminuição da potência de agir — nasce a tristeza.
Se é positiva, nos alegra, nos amplia, faz-nos sentir mais vivos; e, se entendemos a causa desse aumento, chamamos isso de amor.
Nesse sentido, posso dizer que todas as minhas paixões foram verdadeiras — desde hobbies aparentemente banais até gestos íntimos dirigidos a pessoas.
Algumas foram mais fortes que outras.
Não é segredo: se você está aqui me lendo, é porque, em algum ponto, uma paixão do passado guiou meus passos por tanto tempo que me impediu de viver outras coisas boas.
Foi paradoxal: tanto me bloqueou quanto me ensinou.
Em termos gerais, foi frustrante e formativo ao mesmo tempo.
Não tenho dúvida de que houve reciprocidade de sentimento — talvez intensa —, mas faltou ação.
Eu fiz muito; recebi pouco.
Quando tentamos nos aproximar de novo, nossas interações foram ruins.
E o mais amargo: a pá de cal foi perceber que, depois de anos me acompanhando, sabendo quem eu sou, eu não fui verdadeiramente conhecido.
Eu mostrava quem era — e não fui visto por inteiro.
É uma pena.
Nunca deixei de dar sinais de mim.
Ironia fina: a pessoa que tinha mais tempo, capacidade e intimidade para me conhecer foi a que menos soube retribuir.
Ainda assim, a rejeição dela, longe de me paralisar, foi matéria de construção: foi pela ausência — não pela presença — que me tornei quem sou hoje.
Algo que precisei acrescentar, porque só entendi muito depois: quando a conheci, eu não estava no meu melhor momento.
Os juízos do corpo influenciam o pensamento.
Um corpo cansado erra leituras.
Como diria Espinosa: a potência de agir altera a clareza de ver.
Hoje, saudável e lúcido, recuperei a capacidade de avaliação.
Vejo belezas que antes estavam ocultas, nuances que meu corpo exausto não alcançava.
É outra vida — e, finalmente, ela é minha.
Ela é um ex-amor.
E há, claro, aquele jogo meio infantil de indiretas pós-término para ver quem “se deu melhor”.
Normalmente quem se dá bem é o amigo talarico do casal, sempre à espreita, só esperando a bola sobrar na pequena área para marcar o gol. De placa.
Mas para mim nunca foi sobre vitórias de vitrine.
O propósito sempre foi ser melhor — conquistar minha melhor versão.
E nisso, paradoxalmente, a rejeição ajudou mais do que qualquer presença.
Ainda guardo carinho e admiração por ela.
Não preciso dizer que ela me afeta; me afeta, sim, e foi especial.
Mas dizer que a amo hoje seria falta de respeito comigo, com ela e com tudo o que ainda pode vir.
Se eu a encontrasse, daria um abraço apertado, de carinho e despedida:
“Foi bom te conhecer. Eu te amei muito. Você foi importante na minha vida — talvez ainda seja, porque guardamos pedaços dos outros conosco. Mas este abraço é despedida.”
Eu te amo, amiga — não meu amor, não minha paixão.
Agora, adeus.
Não guardo rancor. Guardo aprendizado.
Vou seguindo com a leveza de quem aprendeu a não confundir presença com pertença.
Obrigado por tudo — pelos pedaços que levo.
Mas agora vá e — como diria Noel Gallagher:
"Don't look back in anger"