“Como esses primitivos que carregam por toda parte o maxilar inferior de seus mortos,
assim te levo comigo, tarde de maio,
quando, ao rubor dos incêndios que consumiam a terra,
outra chama, não perceptível, e tão mais devastadora,
surdamente lavrava sob meus traços cômicos,
e uma a uma, disjecta membra, deixava ainda palpitantes
e condenadas, no solo ardente, porções de minh'alma
nunca antes nem nunca mais aferidas em sua nobreza
sem fruto.
Mas os primitivos imploram à relíquia saúde e chuva,
colheita, fim do inimigo, não sei que portentos.
Eu nada te peço a ti, tarde de maio,
senão que continues, no tempo e fora dele, irreversível,
sinal de derrota que se vai consumindo a ponto de
converter-se em sinal de beleza no rosto de alguém
que, precisamente, volve o rosto, e passa…
Outono é a estação em que ocorrem tais crises,
e em maio, tantas vezes, morremos.”
— Tarde de Maio, Drummond.
Drummond começa um poema como quem começa um rito.
E, inspirado por ele, percebo que faço o mesmo:
não te peço nada — nem presença, nem gesto, nem retorno.
Como a “tarde de maio”, peço apenas que continues irreversível,
precisamente como és.
A tua simples existência — esse brilho distante, cotidiano, involuntário —
faz mais por mim do que faço por ti quando escrevo.
Tu me inspiras.
E isso basta.
Talvez seja a forma mais elegante de amor:
não reivindicar — apenas existir.
É estranho, eu sei, começar uma piada com uma confissão e um poema.
Mas também existe aquele verso curto que diz:
Amor. Humor.
E quem observar bem dois apaixonados — mesmo os que não se confessam —
percebe rápido que ambos representam uma comédia.
Uma comédia séria, é claro, como toda coisa importante.
Por isso, antes da piada, te convido a caminhar pela crônica.
Lá no fim, prometo: ela chega.
E chega sob encomenda.
Spike Jonze — antes conhecido pelos videoclipes do Sonic Youth e por ter namorado Sofia Coppola, filha do Ford Coppola — criou em Her um tratado delicadíssimo sobre solidão.
Theodore, interpretado por Joaquin Phoenix em um papel oposto ao seu Coringa, dedica-se a escrever cartas que outros assinam:
é o homem que vê a beleza que os casais esquecem de enxergar.
E, por enxergar demais, fica só.
Her é um filme profundamente feminino, todo cor-de-rosa, sensível, íntimo.
Poderia se chamar 50 Tons de Rosa.
Nele, o amor deixa de ter corpo e vira software —
um prelúdio do nosso mundo líquido descrito por Bauman:
relações escorrendo entre os dedos,
afetos mediados por algoritmos,
parceiros escolhidos como catálogo da Avon — deslize para rejeitar.
O amor virou commodity.
Ação afetiva que sobe ou cai conforme o humor do mercado emocional.
Ainda assim, quem culpa Theodore?
Difícil não se apaixonar pela voz de Scarlett Johansson.
Mas o amor, para ser amor, precisa de corpo, cheiro, pele, endereço.
Se existe escritor de aluguel, por que não existiria humorista sob encomenda?
Alguém responsável por criar piadas com destinatário certo,
miradas para um único sorriso,
um rosto específico,
um riso inevitável.
Pois bem — aqui está uma feita sob medida.
“Eu jamais correria o risco de te levar à Disney.
Vai que o pessoal te confunde com uma das atrações do parque?
Eu me distraio um segundo, olham para você, acham que é uma princesa oficial,
e eu volto para o Brasil sozinho.”
Muito arriscado.
Prefiro o espetáculo de casa.
Que, por acaso,
é você mesma.
Minha personal princesa da Disney.
Simplesmente um luuuuxo.