
Eu não deveria escrever este texto.
Talvez nem devesse publicá-lo.
Mas a tensão entre querer e não ter pressiona o peito por dentro, e para não explodir, despejo tudo no papel — que hoje recebe palavras quentes, respiradas, úmidas de desejo.
O corpo nunca mente.
Ele revela aquilo que tentamos esconder com a razão.
E então, confesso:
ontem — e hoje — eu te desejei mais do que nunca.
Mas, mais uma vez, não te tive.
Você surgiu doce e vulnerável, fantasiada de princesa.
Ou talvez não: talvez estivesse apenas vestida de você mesma, só que iluminada por um encanto que nem a Disney sabe fabricar.
As orelhas do Mickey não te transformavam; apenas revelavam uma parte sua que você esconde — uma leveza quase infantil, uma beleza que não depende de esforço.
E eu te olhei.
Te olhei com um cuidado que disfarcei bem demais.
Porque cada pequeno gesto teu — o “precisa de mais alguma coisa?”, o “muito obrigada” — soava, na minha cabeça, como poesia dita por quem não sabe que está sendo autora.
Eu te ouvia pouco, mas sentia muito.
E como eu poderia responder com sinceridade quando você perguntava se eu precisava de algo?
Eu precisava, sim.
Mas não do que estava ao alcance das mãos.
O que eu precisava — e não ousava pronunciar — era exatamente o que o meu olhar te entregava antes que eu conseguísse desviar:
a vontade de te ter, ainda que por um instante, sem Disney, sem fantasia, sem reservas.
Mas eu não posso.
E não ouso sonhar alto demais.
Por isso escrevo — para aliviar a vertigem de te desejar no silêncio,
para manter intacta a única forma possível de te tocar:
a palavra.