ESCREVO PARA MULHERES IGUAIS A VOCÊ
DAVELEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BR
Escrevo para mulheres iguais a você.
Meu público é singular: é unissex, mas à maneira da Marisa — feito para mulheres, mas com espaços para homens que recebem delas o presente.
A literatura, a noite e a poesia — são femininas.
Escura é a noite. Escuros são também os meus caminhos.
Mas minha escrita é clara como o dia: cristalina como a água das praias de Maceió, onde é possível ver o nado dos peixes coloridos; límpida como a luz dos teus olhos, que brilham como o teu sorriso.
Não é uma escrita de mulher para mulher, como a Marisa.
É de poeta para poeta — sendo a mulher, ela mesma, a poesia.
Um poeta que escreve prosa, mas cuja prosa é um espelho líquido: tudo pode ser poesia — um gesto, uma flor, até a ausência de gesto.
Já me apaixonei por um cheiro, por um sorriso, por um ato — e pela falta do ato.
Dizem que Godard tinha a capacidade de escrever com a câmera.
Mas eu creio que ele fazia poesia com a câmera.
E como aquele filme em que Brigitte Bardot aparece nua, sensual: E Deus criou a mulher.
E Deus criou a mulher — e, consequentemente, criou a poesia através dela.
É difícil aceitar que de um ser tão belo quanto a mulher possa nascer também o sexo masculino.
Há um jogo chamado 1000 Vezes Resista — onde todos no mundo são mulheres, protótipos da mesma mulher. Clones.
A única voz masculina é a de uma criança.
E é preciso ter alma de criança para aconselhar as mulheres.
No jogo, essa criança é o guia.
Por isso, talvez, Cupido — filho de Afrodite — seja uma criança travessa com asas.
A minha escrita tenta capturar essa criança célere e inquieta.
Não para conquistar uma mulher em particular,
mas para tocar a mulher em geral —
esse mundo ideal das mulheres da caverna de Platão.
Mas até agora, só encontrei sombras.