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A senhorita me desprezou novamente — e eu agradeço.
Mas o “desprezo”, como no filme de Godard com Michel Piccoli e Brigitte Bardot, não passa de uma hipérbole, uma figura de linguagem usada para fisgar incautos e seduzir leitores.
Porque, afinal, só se despreza aquilo que não importa.
O termo mais adequado seria talvez desvalorização: a troca de um valor por outro, a hierarquia invisível entre o ser e o ter, entre o gosto e o bom gosto, entre o espírito e o espetáculo.
Em Pierrot le Fou, Ferdinand afirma que viajar expande o espírito.
Mas será mesmo?
Será que ir à Praia Grande equivale a ir a Búzios?
Será que o espírito de quem vai a Orlando, talvez para ver o Pateta, é o mesmo de quem vai a Paris ver o Louvre, a Monalisa, a Torre Eiffel?
Será que o espírito de quem vai a Cancun é o mesmo de quem vai a Sils Maria, contemplar as montanhas e a famosa serpente de nuvens?
Será que o espírito de quem vai a Turim ou Sevilha, sob o sol do Mediterrâneo, é o mesmo de quem vai a Ibiza ou ao Spring Break?
O espírito está em tudo — como escreveu Fernando Pessoa:
“Tudo vale a pena se a alma não é pequena.”
E a falta de espírito diminui tudo.
O homem elegante é elegante na totalidade do seu comportamento.
Na forma como gasta, como se move, como se cala.
Na maneira como toca os objetos, como se despede, como escolhe os lugares onde deposita sua energia.
Dinheiro sem espírito é o mesmo que amor sem alma —
ou, como dizia Balzac, “uma orgia de plebeu.”
A verdadeira aristocracia não nasce da renda ou da herança, mas do hábito.
É o sentido que se dá à existência —
essa distinção do ser, essa forma particular de se manifestar no mundo,
dando ao mundo sua individualidade e exprimindo em tudo o que lhe pertence uma elegância natural.
O senso comum já reconhece isso: estilo é algo que se tem ou não se tem.
A elegância é parecida —
mesmo quando se torna um hábito, é o sinal de que o espírito foi nobre o bastante para adquiri-la.
O desprezo da senhorita — de todas as senhoritas —
em meu detrimento e favorecimento de outros,
não é uma tragédia, mas uma questão de valores, de escolhas, de gostos.
Afinal, cada qual ama conforme o próprio espírito é capaz de amar.
Quando eu escrevo sobre alguém, é como se eu tivesse a modelo diante de mim —
a minha musa.
E eu fosse o pintor retratando-a nua,
ingenuamente vulnerável, exitosa e desejosa ao mesmo tempo —
molhada de se saber desejada e pintada por um artista tão habilidoso
que é indiferente ao fato de o que pinta ser real ou não.
Comprometido apenas com o melhor resultado de sua arte —
no meu caso, da minha escrita.
E não se pode desprezar ou ser indiferente à modelo eternizada na minha pintura,
porque ela não é feita com tinta —
mas com sangue e paixão.
A linguagem é o corpo da alma,
e a palavra é o seu gesto mais nu.
Como diz Godard na introdução de O Desprezo —
o cinema transforma o mundo real em um mundo mais harmônico com nossos sonhos. (Que você pode ver no meu instagram aqui:
https://www.instagram.com/reel/DQoPIomgOc4/?igsh=MTRjZ2QzNmVneWhpdA==
)
E talvez seja apenas isso que buscamos, cada um à sua maneira:
harmonizar o real com o sonho.
Fazer do desprezo um espelho da elegância.
Transformar a perda em estilo.
E o silêncio — em arte. O Desprezo, como disse Godard, é tradução dessa história.