DAVELEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BR
Acredito nas grandes inspirações da consciência, acredito no poder do artista.
Acredito que a arte salva, dignifica e melhora a humanidade.
Acredito na criação como símbolo divino, nas conspirações e confluências das forças do universo que fazem a obra nascer.
Agora, o que isso tem a ver com Deus — eu não sei.
Não se trata de dizer, como inferiu Ivan Karamázov através de Dostoiévski, que “se Deus não existe, tudo é permitido”.
Mas sim de compreender que, se Deus não existe, então a criação é permitida.
Se não há nenhum poder invisível influenciando o destino, o pincel e a paleta estão em minhas mãos.
Sou eu o responsável por dar cor à vida.
E se o resultado será uma obra de arte ou um simples rabisco — isso depende apenas da qualidade do artista.
Creio nas energias que se harmonizam e se expandem, gerando tudo que existe no universo —
mas também em seu contrário.
A única certeza é a máxima entropia da matéria, que paradoxalmente é sua própria organização.
A entropia é obra de um arquiteto que eu não sei se é divino,
de uma força que não sei se é Deus — mas é concreta,
pois cria algo inteligível, talvez por necessidade, talvez por acaso.
Saber que sou o único responsável pela minha existência — e que ela é finita —
gera uma imensa responsabilidade.
Tenho apenas uma vida para extrair dela o melhor resultado possível,
o máximo de experiência e de encontros que alegrem a alma.
Quando ela acaba, é o fim do jogo.
Não há paraíso, não há inferno, não há nada — apenas o silêncio.
Quem não acredita não será punido, nem lançado a lugar algum.
A minha religião é benevolente com todos.
Quem não acredita nela apenas viverá uma vida fugaz — sem sentido,
e não terá outra oportunidade.
No fim, o único juiz — e o único vivente da sua própria vida — é você mesmo.