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O ALTAR E A DÚVIDA
Eu não sei qual seria minha reação se escutasse isso do padre.
— Você promete amá-la e sê-la fiel pra sempre?
Padre, eu sei que suas intenções são as melhores — foi assim que o senhor aprendeu, foi assim que o senhor foi moldado. Mas, padre... eu não posso prometer.
O amor é volátil. O mandamento mais simples é também o mais difícil: “ame o semelhante como a si mesmo.”
Mas, padre, há momentos em que eu não amo nem a mim mesmo. Como poderei prometer amar, eternamente, outra pessoa — por mais que hoje eu a ame até mais do que a mim?
Padre, permita-me um pequeno aparte.
O senhor já leu “Mulher de Trinta Anos”, de Balzac?
Há uma passagem em que o pai diz à filha:
— “Olha, minha filha, hoje ela é feliz. Mas será que amanhã continuará a sê-lo?”
Pois é, padre. Hoje eu a amo, e sou fiel — profundamente, honestamente.
Mas amanhã... quem sabe?
Talvez Deus. Mas Ele tem tantas outras coisas com que se preocupar.
O senhor viu o que aconteceu no Paraná?
Ao meu ver, padre, todos os casamentos já começam na mentira — na medida exata em que o cônjuge promete amar seu parceiro para sempre.
Se eu não estivesse certo, não haveria tantos divórcios.
E nem precisaríamos contabilizar as traições extraoficiais.
— Meu filho, entendo o seu ponto de vista. Então, sendo assim, há alguém — fora o próprio noivo — que seja contra esse casamento?
— Aí sim, padre... — eu diria.
— Agora o senhor está falando, finalmente, a minha língua e algo que eu compreendo.