A BANDA PREDILETA DE UM PERSONAGEM DOS SIMPSONS

A-Ha.
Sim, a banda predileta de um personagem dos Simpsons — e o personagem é o Nelson. Só quem é muito fã dos Simpsons entendeu essa piada, mas podem ter certeza que foi muito boa, ok?!
É curioso, porque o Nelson é aquele arruaceiro suburbano, o valentão de jaqueta surrada, sempre rindo do infortúnio alheio. O tipo mais pobre e mais ferido da turma.
E, no entanto, a Lisa — a mais inteligente, racional e sensível — sente uma queda por ele.
Nisso, Os Simpsons são surpreendentemente verossímeis.
Ela repele o Milhouse, aquele menino de cabelo azul e alma de coadjuvante, o melhor amigo do nosso querido Bartolomew J. Simpson — popularmente conhecido apenas como Bart.
(A não ser, claro, naquele episódio insólito em que o Milhouse toma esteroides, vira marombeiro e, por um instante, brilha.)
No colégio, eu acho que fui mais Bart do que Nelson.
Talvez uma mistura de Bart com Lisa — uma ironia que pensa demais.
Ou talvez Maggie, se ela soubesse falar.
Aliás, há um episódio hipotético em que Maggie aparece crescida — silenciosa, mas inteira.
Acho que me reconheço nesse silêncio.
Voltando ao A-Ha, norueguesa, escandinava — a banda que marcou o coração do pequeno Nelson — sua música mais famosa, “Take On Me”, é um fenômeno que atravessa o tempo e, que, coicidentemente, hoje faz exatos 40 anos.
E, curiosamente, sempre me soou como a história da minha própria vida.
Talking away / I don’t know what I’m to say / I’ll say it anyway…
“Jogando conversa fora, eu nem sei o que dizer, mas digo assim mesmo…”
Today’s another day to find you / Shying away / I’ll be coming for your love, okay?
“Hoje é mais um dia pra te encontrar, ainda que eu me esconda, vou atrás do teu amor, viu?”
E então o refrão explode, entre o teclado e a melancolia:
Take on me — take me on — I’ll be gone, in a day or two.
“Me aceita?
Você me aceita?
Prometo que vou embora, em um dia ou dois.”
A letra toda parece um bilhete de amor escrito às pressas, com o coração batendo rápido demais.
Ela diz:
“Não precisa nem falar nada.
Eu sei que não valho muito.
Mas, ao teu lado, eu aprendo devagar que viver é bom.”
É uma música sobre insistir na ternura — mesmo sabendo que o mundo é cínico, que a Lisa se apaixona pelo Nelson, e que o Bart, no fundo, nunca vai crescer.
A-ha é o som dos adolescentes que não desistem da delicadeza, mesmo dentro do caos.
E talvez o segredo esteja nessa frase:
“É melhor arriscar do que se arrepender.”
O refrão que ecoa quando a vida parece um desenho animado demais pra ser levada a sério, mas séria demais pra ser só um desenho animado.
Take on me.
Take me on.
É o mesmo pedido, dito de dois modos distintos:
Me enfrenta — ou me aceita.
De qualquer forma, é amor.