BEIJAR-TE-IA IGUAL A...

Beijar-te-ia igual a um cachorro sedento bebendo água —
não pela pressa, mas pela urgência do instinto.
A língua e a alma bebendo o mesmo instante,
como quem tenta matar uma fome antiga
que nenhum tempo, nem nenhuma boca, soube saciar.
Com a delicadeza inquieta de quem disputa um recorde invisível — como a de fazer a maior bolha de ciclete - ou sabão - do mundo — não o do Guinness, mas o do coração que mais treme
quando o amor se aproxima e ameaça romper o silêncio.
E, ainda assim,
com o olhar faminto da fera que reconhece a presa
e o olhar doce, quase infantil,
dos Gatos de Botas do Shrek —
onde a ternura e o perdão se misturam
num mesmo gesto de desejo e rendição.
Há beijos que não se dão com a boca,
mas com a alma encostando devagar —
como se temesse acordar o que é puro demais
para o mundo dos vivos.