DAVELEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BR
Quero que as pessoas me vejam sempre no mesmo lugar, praticamente no mesmo horário — e, se eu não estiver, que pensem que alguma coisa deve estar errada. Quero que, quando me virem, digam: “Ah, deve ser determinada hora”, como quem reconhece a posição do sol. Há uma beleza quase sagrada nessa repetição — como se o cotidiano fosse uma missa secreta, celebrada diante de ninguém.
Quero que presumam com exatidão: “Nem adianta mandar mensagem, ele já deve estar dormindo.” Ou então: “Logo pela manhã, ele provavelmente está tomando café, lendo, tendo ideia pra algum texto que logo vai publicar.” Talvez imaginem: “Nessa hora, já deve ter música nova na capa do site. Mais tarde, vai postar humor. Talvez hoje poste foto de comida, academia ou um look do dia. Ah, tem jogo do Palmeiras — com certeza ele vai postar.” Ser previsível, nesse sentido, é como ter órbita própria — repetir-se com dignidade, girar em torno de si mesmo com fidelidade solar.
Se as pessoas conseguem prever meus comportamentos, que também consigam prever meus valores, minha consistência, minhas virtudes. Porque essa previsibilidade banal — essa transparência quase monótona — é justamente o que permite o imprevisível: o pensamento que se desvia, que inventa, que respira. A rotina não é prisão; é método. A disciplina é o alicerce invisível da liberdade criadora.
Não há distinção entre a rotina do corpo e a atividade do pensamento. O pensamento é uma função do cérebro — e, portanto, do corpo. São inseparáveis. Quem tem maior capacidade aeróbica também tem mais capacidade de processamento cerebral: memória, criatividade, aprendizado. Mas tudo depende de descanso, sono, silêncio. Não há pensamento sem corpo, nem espírito que pense ignorando os músculos que o sustentam. Cuidando do corpo, cuida-se da mente. E quando o pensamento não presta, o corpo sofre as consequências.