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DAVE LE DAVE
SIM, ELE MESMO
Textos


O AMOR DO PONTO DE VISTA DE UM CÍNICO

 


DAVELEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BR



“Pois só quem é constante sempre são os mortos.”

 

O EROS DOMÉSTICO

Não lembro quem foi que disse — certamente algum filósofo cínico — que é até indecente deitar-se com a própria mulher.

Faz sentido.

O convívio diário destrói o erotismo; o desejo, afinal, nasce da falta.

Deseja-se a outra, o que não se tem, o que ainda é mistério.

Deseja-se a amante.

 

E então vêm os filhos, e a mulher sofre uma metamorfose silenciosa: vai deixando de ser mulher para tornar-se mãe.

Troca as calças justas, que marcavam sua feminilidade e denunciavam o erotismo, por moletom.

E, num gesto simbólico e fatal, compra uma calcinha bege.

Nenhum G-string sobrevive à cor bege — nem a luxúria.

 


 

DA INCONSTÂNCIA E DOS MORTOS

Este texto está saindo mais cínico do que a frase com que o abri — e, no entanto, eu não sou cínico.

Sou apenas inconstante no amor.

O que, pensando bem, é ótimo: constantes mesmo só os mortos.

Há alguém mais estável que um cadáver?

Como disse um sábio: “Você é como um morto — e os mortos não sabem de nada.”

Deve ter sido outro cínico.

 

Na minha inconstância, fui dormir pensando num amor passado e acordei pensando em Helena — até vê-la grávida de Menelau.

A gravidez é o contrário do desejo, uma antítese da paixão.

E ao longo do dia, pensei na garota de cabelos dourados — tentando decifrar o enigma da esfinge de sua beleza:

seria aquele dourado natural, obra do sol, ou apenas efeito da água oxigenada volume 20?

 


 

A FOTO DE 3 DE DEZEMBRO

Faz um ano desde que vi uma foto — que talvez ainda exista, vai saber.

Tenho na memória a data precisa: 3 de dezembro de 2023.

Nela, ela estava linda — numa pose ensaiadamente natural, dessas que fingem descuido e revelam domínio.

É graças a esse tipo de beleza que a poesia e a filosofia existem.

As musas — inspirações dos poetas e da mitologia — são também o motor secreto de todo pensamento.

Como disse Thomas Mann, “a beleza é uma forma de pensamento”.

E como pensa bem essa garota.

Como escreve bem.

 

Mesmo sendo bela, abro mais vezes um texto dela do que sua própria foto.

Minha admiração e atração têm esse desvio de rota.

Mas, se o texto vier acompanhado da foto, então, ah — que o navegador se contamine como um vírus e abra a página mil vezes, embriagado pela sua beleza arrebatadora.

 


 

O PIRULA E O NARCISO

Da beleza da sua escrita, lembro que ela achava o Pirula bonito.

Pois é.

Eu sei que não sou exatamente um Narciso, mas também não sou um Sócrates — tampouco um Pirula.

Não é possível que eu não seja mais bonito que um cabeludo de barba e barriga protuberante, ainda mais depois do AVC.

Aliás, boa recuperação pra ele — parece ser gente boa.

Nunca vi um vídeo seu, mas se gosta de dinossauros, vota no PT e é contra o Bolsonaro, só pode ser boa pessoa.

 



 

A BELEZA COMO INFORTÚNIO

Mas uma beleza como a da garota de nome de seriado proibido é também um grande infortúnio.

É como disse o amigo de Stendhal a respeito de um amor não correspondido:

“Que desgraça para você tê-la conhecido.”

O alinhamento dos astros que produziu tantas virtudes em uma só mulher — alva, dourada, engraçada, sexy, escritora de talento e, dizem, ainda atriz — foi tão preciso que é impossível não se apaixonar.

Se eu ficasse com ela, muita gente sofreria.

E eu, paradoxalmente, seria o homem mais feliz do mundo.

 

Amá-la — e, pior, ser correspondido — seria uma responsabilidade enorme.

Mas o que eu poderia fazer se a tivesse?

Talvez um pouco de sorte.

Eles, apenas o azar de não serem eu.

 


 

EPÍLOGO DE UM FALSO CÍNICO

Ressalto: a frase cínica do começo não é minha.

Eu sou apenas alguém que sente demais e ama em excesso.

E, por isso mesmo — eu sinto muito.

 

 

 

 

 

 

ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL)
Enviado por ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL) em 08/11/2025
Alterado em 08/11/2025
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