O AMOR DO PONTO DE VISTA DE UM CÍNICO

“Pois só quem é constante sempre são os mortos.”
O EROS DOMÉSTICO
Não lembro quem foi que disse — certamente algum filósofo cínico — que é até indecente deitar-se com a própria mulher.
Faz sentido.
O convívio diário destrói o erotismo; o desejo, afinal, nasce da falta.
Deseja-se a outra, o que não se tem, o que ainda é mistério.
Deseja-se a amante.
E então vêm os filhos, e a mulher sofre uma metamorfose silenciosa: vai deixando de ser mulher para tornar-se mãe.
Troca as calças justas, que marcavam sua feminilidade e denunciavam o erotismo, por moletom.
E, num gesto simbólico e fatal, compra uma calcinha bege.
Nenhum G-string sobrevive à cor bege — nem a luxúria.
Este texto está saindo mais cínico do que a frase com que o abri — e, no entanto, eu não sou cínico.
Sou apenas inconstante no amor.
O que, pensando bem, é ótimo: constantes mesmo só os mortos.
Há alguém mais estável que um cadáver?
Como disse um sábio: “Você é como um morto — e os mortos não sabem de nada.”
Deve ter sido outro cínico.
Na minha inconstância, fui dormir pensando num amor passado e acordei pensando em Helena — até vê-la grávida de Menelau.
A gravidez é o contrário do desejo, uma antítese da paixão.
E ao longo do dia, pensei na garota de cabelos dourados — tentando decifrar o enigma da esfinge de sua beleza:
seria aquele dourado natural, obra do sol, ou apenas efeito da água oxigenada volume 20?
Faz um ano desde que vi uma foto — que talvez ainda exista, vai saber.
Tenho na memória a data precisa: 3 de dezembro de 2023.
Nela, ela estava linda — numa pose ensaiadamente natural, dessas que fingem descuido e revelam domínio.
É graças a esse tipo de beleza que a poesia e a filosofia existem.
As musas — inspirações dos poetas e da mitologia — são também o motor secreto de todo pensamento.
Como disse Thomas Mann, “a beleza é uma forma de pensamento”.
E como pensa bem essa garota.
Como escreve bem.
Mesmo sendo bela, abro mais vezes um texto dela do que sua própria foto.
Minha admiração e atração têm esse desvio de rota.
Mas, se o texto vier acompanhado da foto, então, ah — que o navegador se contamine como um vírus e abra a página mil vezes, embriagado pela sua beleza arrebatadora.
Da beleza da sua escrita, lembro que ela achava o Pirula bonito.
Pois é.
Eu sei que não sou exatamente um Narciso, mas também não sou um Sócrates — tampouco um Pirula.
Não é possível que eu não seja mais bonito que um cabeludo de barba e barriga protuberante, ainda mais depois do AVC.
Aliás, boa recuperação pra ele — parece ser gente boa.
Nunca vi um vídeo seu, mas se gosta de dinossauros, vota no PT e é contra o Bolsonaro, só pode ser boa pessoa.
Mas uma beleza como a da garota de nome de seriado proibido é também um grande infortúnio.
É como disse o amigo de Stendhal a respeito de um amor não correspondido:
“Que desgraça para você tê-la conhecido.”
O alinhamento dos astros que produziu tantas virtudes em uma só mulher — alva, dourada, engraçada, sexy, escritora de talento e, dizem, ainda atriz — foi tão preciso que é impossível não se apaixonar.
Se eu ficasse com ela, muita gente sofreria.
E eu, paradoxalmente, seria o homem mais feliz do mundo.
Amá-la — e, pior, ser correspondido — seria uma responsabilidade enorme.
Mas o que eu poderia fazer se a tivesse?
Talvez um pouco de sorte.
Eles, apenas o azar de não serem eu.
Ressalto: a frase cínica do começo não é minha.
Eu sou apenas alguém que sente demais e ama em excesso.
E, por isso mesmo — eu sinto muito.