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A genialidade de Zuckerberg não foi criar o Facebook. Redes sociais já existiam — e, como toda criação humana, já estavam fadadas à saturação. A genialidade dele foi comprar o que ameaçava destruí-lo. Com dinheiro e cálculo, comprou o WhatsApp e o Instagram. Aquele “X” da Shopee nem vale a pena mencionar.
O Facebook — e todas as redes baseadas em texto — estão condenadas. Algo impensável há dez anos, quando o Instagram era apenas um site de imagens com filtros amarelados e nostalgia digital.
O ponto de virada veio com a superficialização estética, a eficiência das câmeras de celular e a banalidade do espírito. Os stories e reels completaram a transição: cada vez menos linguagem, cada vez mais imagem. O que pedia texto virou métrica — visualizações, curtidas, emoticons. Síntese e ruído. A vida resumida ao Highlights da mediocridade.
Quem ainda ousa comentar com uma frase minimamente elaborada corre risco: se o receptor não entrar em tela azul, te bloqueia. A reflexão virou ameaça. O bloqueio, uma forma de autodefesa estética.
O bloqueio é a ferramenta mais poderosa da era digital. Nosso comportamento é moldado pelo ambiente que nos automatiza. Se o ambiente só valoriza a superficialidade, a falta de gosto e o reflexo condicionado do algoritmo — então seu comportamento será a soma disso tudo.
Bloquear alguém que representa a antítese desse ambiente é quase um ato político. É proteger o espelho rachado da bolha onde se vive. O que ameaça a ilusão precisa ser silenciado.
As pessoas desaprendem o bom gosto, a comunicação, a valorização da beleza, inocência, a sutileza do gesto. Esquecem o que eleva o espírito — essas coisas inúteis e, por isso mesmo, tão necessárias. Vão repetindo o ambiente como papagaios digitais: cópias da cópia da cópia. Da família, dos pares, dos influenciadores. Legando adiante a miséria que herdaram.
A felicidade virou algoritmo. Medida em likes, em comentários, em comparações. Já não é subjetiva — é objetiva, mensurável. E o pior: calculada por pessoas que você mal conhece, mas que, inconscientemente, moldam quem você se torna. A média das médias.
O TRAFICANTE DIGITAL
Mark Zuckerberg não usa a própria rede. Chama as pessoas de “usuários” — como um traficante chama seus clientes. Ele vende o vício, mas não o consome. E com o dinheiro, compra mentes brilhantes, engenheiros da dopamina, para te prender mais e mais dentro da tela.
Enquanto isso, o mundo real fica suspenso — as pessoas, o ar, o toque, o instante. Aquilo que é inútil e, justamente por isso, humano: admirar a paisagem, respirar, conversar, ler, amar.
Mas o inútil é o que nos salva. Sempre foi. E sempre será.