
Não apenas factualmente — mas metaforicamente — adoramos ler sobre nós. Mesmo quando é ruim. Há sempre aquele impulso: “deixa eu ver o que esse idiota está falando de mim”. Ou então: “se essa pessoa pensa isso sobre mim, talvez tenha alguma razão”.
Também é metafórico porque, quando lemos uma história ou assistimos a um filme que nos lembra de nós mesmos, nos identificamos com algum personagem ou situação. E essa identificação traz um prazer e uma felicidade subjetiva muito grandes.
O EGO COMO LEITOR
É só por isso que tenho razão em acreditar que as personagens sobre quem escrevo me leem. Fazem isso ou para se sentirem bem com as minhas palavras — rememorando-as — ou simplesmente para ver se há algo de novo sobre elas. Quando percebem que não há, batem o olho e fecham meu site com nojo.
Mas, se o texto for negativo, a vaidade as prende até o fim. Leem mordendo os lábios, cheias de raiva pelo autor. Xingam-me mentalmente de muitos nomes, mas não podem comentar — para não desmentir a própria vaidade. Fingem indiferença e passam a outro texto.
No fundo, se uma pessoa não consegue perceber a beleza por trás do elogio, das palavras, isso diz mais sobre ela do que sobre mim. Diz sobre sua falta de gosto.
A INDIFERENÇA É PIOR QUE O DESPREZO
Só nos importamos com quem fala de nós quando essa pessoa tem ao menos alguma relevância. A indiferença é o sentimento mais aversivo que existe — mais que amor, ódio ou desprezo. Porque a indiferença é um zero à esquerda: é como se a pessoa não existisse no universo do outro.
A ANÁLISE INVERTIDA DA VERDADE
É assim que trato a tal da Análise Invertida da Verdade — digo, da Escrita —, que fez uma página dedicada ao recalque literário. E que nem se dá ao trabalho de corrigir os próprios prompts que entrega à inteligência artificial. É uma indigência cognitiva, uma preguiça intelectual rara: incapacidade e mau gosto em estado puro.
O texto dela é tão metálico que, se ficarmos muito tempo ali, corremos o risco de pegar tétano — de tão enferrujado. Li outro texto seu porque falava sobre mim. Mas, se ela não viesse comentar, me enchendo o saco, eu jamais saberia de sua existência. E esse limbo existencial é o lugar que melhor lhe cabe.