
DAVELEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BR
Como no filme de Wim Wenders, Asas do Desejo, tudo começa em preto e branco. Um anjo (Bruno Ganz, saudoso) observa a humanidade com a paciência de quem já entendeu o sofrimento e a beleza do mundo. Ele vê, escuta e sente sem poder tocar. Até que, de repente, o impossível acontece: ele se apaixona por uma artista de circo e decide abrir mão da eternidade para viver o amor.
Quando isso acontece, o filme ganha cores fortes, escalafobéticas, quase febris, como se o amor tivesse o poder de colorir a própria existência. É isso o que o amor faz — ele dá corpo à alma e dá alma ao corpo. Ele torna tudo suportável, até a dor.
Mas na continuação, Tão Longe, Tão Perto, Wenders mostra o outro lado da escolha. Outro anjo, inspirado pela alegria do primeiro, decide também tornar-se humano. Só que o destino o conduz para longe da graça: ele se perde nos vícios, nos excessos, na carne e na bebida. Ele se torna o avesso do amor. E, de certa forma, essa é uma das verdades mais cruéis da vida — o vício é o oposto do amor, mas ambos nascem da mesma fome: a de sentir-se vivo.
O amor é o vício mais belo. E o vício é o amor sem direção.
O amor, para mim, parece tão longe. Cheguei tarde — e ele já vive com outra. Mas, ao mesmo tempo, está tão perto. Mora a uma quadra da minha rua. Está na mesma esquina, na mesma cidade, sob o mesmo céu. Passo pelo amor todos os dias. Ou, pelo menos, pela sua lembrança. Pela sua beleza. E como não lembrar dela?
Talvez agora ela esteja regando as plantas. Talvez pratique yoga enquanto o descafeinado esquenta, cuidando da casa e da rotina com aquela elegância silenciosa que só as mulheres possuem. Talvez atenda um cliente, resolva um problema, e — quem sabe — pense em mim por um instante, tocada por alguma energia sutil que atravessa o tempo e a distância.
Quem sabe ela não leia um texto meu, por acaso. E que esse texto, entre um gole de café e uma pausa, a faça sorrir. Que a tire por um momento da rotina e a lembre do que existe de mais puro: o mistério do sentir. Que ela pense em mim com ternura, com um afeto leve — não pelo que fomos, mas pelo que poderíamos ter sido.
Porque, às vezes, o amor é isso: estar tão longe, tão perto. Separados por ruas, por vidas, por silêncios, mas unidos por um mesmo gesto invisível — o de continuar sentindo, mesmo quando o outro já partiu.