
DAVELEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BR
Aonde começa o seu trabalho e termina o ChatGPT? Será que você é autor do texto ou simplesmente o redator do prompt? Acho que devemos ser sinceros com nossos leitores: o que eles estão lendo é fruto das grandes inspirações da consciência ou simplesmente obra de um robô sem alma?
A inteligência artificial terá impacto negativo na sociedade, assim como os alimentos hiperpalatáveis e os produtos alimentícios ultraprocessados. Alguns saberão usar com parcimônia; outros padecerão de doenças crônicas — cognitivas, neste caso — por causa deles.
Um caso emblemático aconteceu quando o Palmeiras tomou de três na Libertadores, e o comentarista quis bancar o espertão: perguntou ao Chat em quais ocasiões esse resultado havia sido revertido. A inteligência artificial deu a resposta errada, e ele passou a informação no ar.
Para mim, o caso foi antiético com a profissão de jornalista — uma vergonha para a classe. Deveria receber um gancho exemplar, principalmente estando na Rede Globo. Esses erros são chamados de “alucinações do ChatGPT”, e são muito mais comuns do que se imagina.
Eu sou réu confesso: uso o ChatGPT não para escrever por mim, mas para economizar tempo revisando meus textos. E quando ele interfere, eu o advirto. Quando altera demais, quase sempre é para pior. O diretor do texto é sempre o homem. Ele é meu funcionário que custa quarenta reais por mês.
Com ele calculo os macros da minha dieta, estabeleço diálogos socráticos entre mim e a máquina para tirar minhas próprias conclusões. Mas não se enganem: o Chat só entrega o limite das suas próprias capacidades. Com ele gero as ilustrações dos meus textos, mas nunca deixo que ele os escreva por mim. No máximo, ele cria os capítulos — justamente a pior parte do meu texto, se vocês forem ver.
É inadmissível que eu não escreva, que eu não reconheça o meu trabalho, mesmo passado pela intervenção do ChatGPT. Mas aqui mesmo, no Recanto, já existem os obesos do ChatGPT — que não apenas escrevem textos baseados nele, mas também elaboram comentários. Como aquele crítico de escritores amadores que, em vez de falar “autor”, escreveu “autorização”.
A criatura é tão preguiçosa e indolente cognitivamente que nem se deu ao trabalho de reler o que a máquina produziu, no seu afã de parecer algo que não é.
É por isso que cada vez mais apelo a relações inusitadas, quase nonsense — para que meu leitor antigo, ao me ler, quase consiga escutar minha voz, de tão fidedigna. Porque alguns soam como a voz do Alpha 60, de Godard, ou de HAL 9000, de 2001: Uma Odisseia no Espaço — completamente mecânica.