
Abel Ferreira, técnico do Palmeiras, dá boas entrevistas. Aliás, ele é melhor falando do que treinando o time em si — que, convenhamos, tem muitas limitações. Em uma dessas entrevistas, ele disse algo simples e profundo: que o casamento perfeito é a união de duas pessoas imperfeitas.
Essa frase encerra uma verdade antiga: o amor não nasce da perfeição, mas do entendimento da diferença — da harmonização dos contrários. É o ponto em que o conflito encontra repouso, onde o caos aprende a dançar.
Mas o amor, propriamente dito, é outra coisa. É o espelho cujo reflexo mostra o melhor de nós mesmos — não a realidade. É o arremate do mundo das sombras de Platão, onde o desejo se confunde com a luz e o ideal se projeta sobre a parede da caverna.
Ele tem suas veleidades. Às vezes, um gesto, uma foto, um simples reel faz cair a lente que separa a realidade da ilusão. E, como diria Freud, a ilusão é um tipo especial de erro — aquele que considera nossos desejos antes dos fatos.
Em outras ocasiões, o amor é despertado por uma ação, como em O Vermelho e o Negro, de Stendhal, quando Mathilde diz que jamais se uniria a alguém fraco como Julien. Ele, ferido no orgulho, pega a espada para atingi-la — e esse gesto, em vez de destruir o amor, o reacende ainda mais. Mas no meu caso, foi o oposto.
Também sou culpado por ignorar os sinais. Nas próprias redes sociais, o tipo de perfil que alguém segue já denuncia a qual mundo pertence. Um mundo onde a frivolidade é celebrada, onde as bebidas, as dancinhas e o orgulho de “ser da quebrada” substituem qualquer noção de beleza, cultura ou arte.
Quando alguém deixa de seguir um perfil como o meu e escolhe outros tão distantes da estética e da reflexão, isso revela claramente que tipo de vida valoriza — uma vida totalmente incompatível com a minha. É um abismo simbólico, não moral.
E a vida é um jogo — como dizia Bataille -, nossas escolhas são simplesmente apostas: apostas na nossa melhor versão, na felicidade possível, no envelhecimento digno, numa vida ética e bem vivida, como compreendiam os gregos antigos.
Quando eu coloco a cultura e o cuidado estético e a saúde em detrimento a bens materiais, apostando que no futuro isso me trará mais felicidade, uma felicidade eudaimônica em vez de hedonista.
É por isso que venho me comunicando cada vez menos — a não ser por necessidade. O que eu poderia conversar com essas pessoas? Não faço fofocas, não desperdiço frases com qualquer um. Como disse Zaratustra ao ermitão da floresta: “O que eu poderia vos dar? Deixai-me partir, então, para não tirar-vos nada.”
E sigo assim: com sorte no jogo e azar no amor. Ou talvez com lucidez demais para continuar jogando.
No meu site esse texto fica mais crocante, por isso acesse: daveledave.recantodasletras.com.br