Vivemos a verdadeira era do ouro — não a dos mitos gregos, mas a do consumo.
Tudo o que vale é o que o ouro pode comprar.
E nessa corrida por brilho, o ser humano vai esquecendo sua vocação primordial: a linguagem, o pensamento, a cultura.
Sem isso, o que nos restaria além de sermos apenas primos mais bem vestidos dos macacos?
Nas redes sociais, as pessoas se comunicam por faro — substituem os antigos grunhidos por emojis.
O elogio desapareceu.
Ninguém mais consegue escrever uma frase inteira com sujeito, verbo e emoção.
E quando alguém tenta, quando alguém fala como um ser humano completo, causa estranhamento — e às vezes, até um bloqueio.
Quando deixamos de apreciar uma forma de linguagem mais profunda para aceitar outra mais rasa, estamos enviando um sinal: o que valorizamos revela quem somos.
No meu Instagram, não há copos de bebida, motos ou narguilés.
Há livros, filmes, treinos e o link do meu site cultural.
Pode parecer pouco, mas é o suficiente pra mostrar onde coloco meu interesse: na forma mais refinada da beleza — a que não grita, mas permanece.
Clarice dizia que as mulheres são inconstantes e borboletas — e é verdade.
Nunca se sabe o que esperar.
Elas elogiam a poesia, mas são os presentes caros que elas pedem.
E nisso não há contradição: é da natureza feminina desejar o que é belo, seja um verso ou um vestido.
O problema é que desaprendemos a equilibrar as duas coisas — o ter e o ser, o sentir e o possuir.
Gosto de ser fiel ao que sou.
Não posto meus “looks” no Tinder; posto meus pensamentos num site literário.
E mesmo sem divulgação, tudo acontece organicamente.
Depois que comecei a publicar trechos de filmes, mais de mil pessoas já passaram por lá.
Os likes, curiosamente, vêm quase sempre de mulheres — talvez porque apenas as sensíveis compreendam o tipo de beleza que proponho.
Se eu mandasse uma mensagem a alguma delas, eu diria algo simples:
“Que bom que você gostou. Escrevo pra pessoas com a sensibilidade de perceber o que está escondido nas entrelinhas.”
Mas prefiro o silêncio da escrita às frases privadas das redes.
Talvez porque escrever pra quem nem percebe o valor do que lê torne tudo mais autêntico.
Mesmo sem ser o autor mais comentado, sei que sou um dos mais lidos — e com mais retenção.
Porque meu público, no fundo, é o mais raro:
mulheres que leem, sentem e voam.
Borboletas que pousam por um instante — e, mesmo que partam, deixam perfume no ar. E elas sempre voltam, e o seu jardim sou eu.
