Muitos poetas chamam a poesia de musa.
Hesíodo, por exemplo, abre a Teogonia atribuindo sua inspiração a elas — filhas de Zeus com a deusa da Memória, Mnemosine — forças que movem o pensamento e dão forma ao indizível.
Para criar, eu preciso de musas.
Não busco posse, apenas presença — a leve presença que desperta algo adormecido.
Não precisam estar comigo, basta que existam.
Mas o dom de se inspirar também é uma maldição: o que eleva, às vezes, isola.
Como Midas, que tinha o toque de ouro, mas não podia desfrutar do que transformava,
meu dom às vezes pesa — tudo o que toco se torna ideia, metáfora, símbolo.
O que há de mais valioso é, paradoxalmente, o que me mantém à distância.
Não quero tirar a paz de ninguém.
Quero apenas ser o que sou: alguém que sente demais e transforma isso em palavra.
Sou discreto.
Será que não entendem o propósito da minha página?
Escrevo o que gostaria que fosse, não o que é.
O que acontece, guardo comigo — o resto é imaginação, arte, invenção.
A doce e pudica Helena, por exemplo — se eu cruzasse com ela, talvez meu corpo me denunciasse com um sorriso involuntário.
Ela, talvez, fingisse que não viu.
Mas é no silêncio que as almas às vezes se reconhecem.
Talvez, ao se afastar, sorrisse por dentro, pensando: “Que figura curiosa.”
E esse é o meu papel: observar o que é belo sem perturbar a ordem do mundo.
Se houvesse oportunidade, seria simples.
Algumas horas bastariam para se tornarem eternas —
uma eternidade breve, daquelas em que o tempo para porque existe sentido.
Einstein talvez sorrisse ao ver que a relatividade também vale para o coração.
Ela é o tipo de mulher que gosta de se sentir única.
E eu, o tipo de homem que gosta de fazer com que ela se sinta assim.
Porque quem inspira sentimento e palavra está muito além da aparência —
sua beleza exterior é apenas o reflexo de algo interior, que não se explica, só se sente.
E talvez seja por isso que certas mulheres permanecem, mesmo quando se vão.
São elas que fazem a inspiração existir — e a existência, valer a pena.
