Uma vez perguntei a um amigo qual sentido ele escolheria perder, se precisasse escolher.
Sem hesitar, ele respondeu: “a audição.”
Fiquei surpreso.
Para mim, que vivo da visão — um cinéfilo, admirador da beleza, leitor e escriba —, não há mundo possível sem a imagem.
Mas ele, com uma calma lúcida, completou:
“Imagina nunca mais ouvir uma mulher gemendo.”
Naquele instante, compreendi o ponto de vista dele.
Não era apenas sobre o som — era sobre o que o som revela: o desejo que escapa, o corpo que fala sem palavras.
O sexo, para mim, nunca foi sobre o orgasmo.
Há quem o busque como o fim, mas para mim é apenas o instante em que tudo se desfaz.
O que me fascina é o ato — o percurso, o olhar, o toque, o corpo que responde ao corpo.
O prazer, para a mulher, começa muito antes do gesto.
Está no elogio, no cuidado, no riso que antecede o toque.
Tudo isso é preliminar — e se estende até o dia seguinte, no simples “você está bem?” ou “quer um pouco de água?”.
Enquanto o corpo masculino se acende em segundos, o feminino é feito de tempo e de espera.
Há uma poesia nesse descompasso.
É nela que mora o desejo verdadeiro — o que não se apressa.
Talvez por isso eu também não consiga imaginar o amor sem a voz.
A audição é o fio que conecta o invisível: é o que revela o prazer, o que entrega a verdade.
Há gemidos que são apenas cena — e há os que nascem da alma.
Esses não se imitam.
Eles não pedem volume nem performance; apenas acontecem, entre o suspiro e o silêncio.
É a respiração entrecortada, o som que escapa no ritmo do corpo, a vibração involuntária que denuncia o êxtase.
É curioso: o prazer verdadeiro raramente grita.
Ele murmura, sussurra, vibra como um segredo compartilhado.
Há também o som do encontro em si — esse compasso natural, líquido, feito de respiração e pele.
O ritmo do desejo é uma onda que nunca se forma completamente; apenas vai e volta, buscando o ponto onde o tempo se dissolve.
O barulho é íntimo, quase sagrado: uma onomatopeia do corpo em comunhão.
É ali que o desejo se revela — na umidade, na entrega, na verdade que o corpo não consegue ocultar.
Quem quiser conhecer a alma de uma mulher precisa antes ouvir o seu silêncio… e depois, a sua respiração.
Para mim, esse som — o som do prazer autêntico — é mais harmônico que a harpa de Apolo.
É a junção dos instintos dionisíacos da flauta de Syrinx com a harmonia solar do deus da perfeição.
Nenhuma música de Bach poderia emular essa melodia.
Porque ela não foi feita para ser ouvida — mas sentida.
É a música que nasce da carne e termina no espírito.
E é ali, entre o som e o silêncio, que o amor se faz eterno.
