× Capa Textos Áudios E-books Fotos Perfil Livro de Visitas Contato Links
DAVE LE DAVE
SIM, ELE MESMO
Textos


OS SONS DO SEXO

 


 

Uma vez perguntei a um amigo qual sentido ele escolheria perder, se precisasse escolher.

Sem hesitar, ele respondeu: “a audição.”

 

Fiquei surpreso.

Para mim, que vivo da visão — um cinéfilo, admirador da beleza, leitor e escriba —, não há mundo possível sem a imagem.

Mas ele, com uma calma lúcida, completou:

“Imagina nunca mais ouvir uma mulher gemendo.”

 

Naquele instante, compreendi o ponto de vista dele.

Não era apenas sobre o som — era sobre o que o som revela: o desejo que escapa, o corpo que fala sem palavras.

 


 

O DESEJO COMO ATO

O sexo, para mim, nunca foi sobre o orgasmo.

Há quem o busque como o fim, mas para mim é apenas o instante em que tudo se desfaz.

O que me fascina é o ato — o percurso, o olhar, o toque, o corpo que responde ao corpo.

 

O prazer, para a mulher, começa muito antes do gesto.

Está no elogio, no cuidado, no riso que antecede o toque.

Tudo isso é preliminar — e se estende até o dia seguinte, no simples “você está bem?” ou “quer um pouco de água?”.

 

Enquanto o corpo masculino se acende em segundos, o feminino é feito de tempo e de espera.

Há uma poesia nesse descompasso.

É nela que mora o desejo verdadeiro — o que não se apressa.

 


 

A VOZ DO PRAZER

Talvez por isso eu também não consiga imaginar o amor sem a voz.

A audição é o fio que conecta o invisível: é o que revela o prazer, o que entrega a verdade.

 

Há gemidos que são apenas cena — e há os que nascem da alma.

Esses não se imitam.

Eles não pedem volume nem performance; apenas acontecem, entre o suspiro e o silêncio.

É a respiração entrecortada, o som que escapa no ritmo do corpo, a vibração involuntária que denuncia o êxtase.

 

É curioso: o prazer verdadeiro raramente grita.

Ele murmura, sussurra, vibra como um segredo compartilhado.

 



A MÚSICA DOS CORPOS

Há também o som do encontro em si — esse compasso natural, líquido, feito de respiração e pele.

O ritmo do desejo é uma onda que nunca se forma completamente; apenas vai e volta, buscando o ponto onde o tempo se dissolve.

 

O barulho é íntimo, quase sagrado: uma onomatopeia do corpo em comunhão.

É ali que o desejo se revela — na umidade, na entrega, na verdade que o corpo não consegue ocultar.

Quem quiser conhecer a alma de uma mulher precisa antes ouvir o seu silêncio… e depois, a sua respiração.

 



O SOM DIVINO

Para mim, esse som — o som do prazer autêntico — é mais harmônico que a harpa de Apolo.

É a junção dos instintos dionisíacos da flauta de Syrinx com a harmonia solar do deus da perfeição.

 

Nenhuma música de Bach poderia emular essa melodia.

Porque ela não foi feita para ser ouvida — mas sentida.

É a música que nasce da carne e termina no espírito.

E é ali, entre o som e o silêncio, que o amor se faz eterno.

 

 

ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL)
Enviado por ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL) em 03/11/2025
Comentários