Estava na rodoviária, escrevendo um texto no celular — provavelmente uma reflexão profunda sobre o amor, a vida ou o preço do café —, quando abri um pacote de rosquinhas Panco. Um gesto simples, quase sagrado: a comunhão entre um homem e seu carboidrato.
Sentei no banco de espera, tirei uma rosquinha do pacote e, de repente, o sujeito ao meu lado… pegou uma também. Assim, como quem respira. Olhei com cara de poucos amigos, mas — como sou civilizado e exalo empatia — fingi que nada aconteceu.
Continuei comendo. Ele também. Eu pegava uma, ele pegava outra.
A cada mordida, um novo capítulo do absurdo humano sendo escrito diante dos meus olhos.
Até que chegou um momento em que o pacote estava vazio. Ele me olhou. Um olhar indecifrável — uma mistura de “obrigado pelo lanche” com “você vai abrir outro?”.
Pensei comigo: “Mas que sujeito folgado, sem noção… comendo a minha rosquinha e ainda me olha desse jeito!”
Logo chamaram o meu ônibus. Peguei minha mochila, ajeitei o fone de ouvido e, ao me levantar, vi sobre o assento… o meu pacote de rosquinhas.
Intacto.
Fechado.
Imaculado, como se nunca tivesse sido tocado por mãos humanas.
Ou seja: eu passei dez minutos comendo as rosquinhas dele.
O que me consola é saber que, neste exato momento, existe um cara em outro ônibus, escrevendo um texto muito parecido com este — mas com toda razão.

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