A linguagem é um espelho delicado: pode elevar ou destruir, acalmar ou ferir. Há palavras que doem mais do que qualquer golpe físico, e é com palavras — e só com elas — que tento hoje fechar um ciclo de onze anos.
Este texto não é vingança, nem confissão. É um gesto de justiça. Um adeus que vem de dentro, escrito por quem sabe reconhecer o valor de uma história, mas também a hora silenciosa em que ela termina.
Entre encontros e desencontros, nunca estivemos inteiramente presentes, nem completamente distantes. Nosso elo sempre foi a beleza — e o modo como ela se manifesta na arte, na poesia, na literatura, no cinema. Foi assim que nos reencontramos: através daquilo que um dia nos fez acreditar no sublime.
Ela tinha dezenove. Hoje tem trinta. Eu a escolhi, mas ela nunca me escolheu. Escolheu o conforto, a aparência, a segurança — talvez até uma forma elegante de resignação. E quando a vejo hoje, não é a aparência que me distancia, mas o reflexo das decisões que moldaram esse rosto. O corpo já não dança, o olhar já não busca o horizonte, a alma parece ter se fechado para o sol.
Mesmo assim, meu sentimento era tão grande que levei anos para aceitar que estava perdendo não apenas uma mulher, mas a musa que me inspirou a escrever, a pensar, a ser melhor.
Talvez o mais triste seja perceber que nem o que construí — meu site, minhas palavras, meus gestos — foi capaz de despertar nela algo que a fizesse querer ler, se cuidar, alimentar a alma.
E então compreendi: não posso salvar quem não deseja ser tocado pela própria luz.
Hoje sou uma boa influência para pessoas que nunca me viram, que me observam à distância, e não para quem um dia caminhou ao meu lado. E entre todas as mulheres que já homenageei, ela foi a que recebeu as condições mais favoráveis: bons colégios, bons livros, capital cultural, tempo e oportunidades. Mas o destino não é o que o mundo faz conosco — é o que fazemos com o que o mundo faz de nós.
E eu fiz o meu caminho. Ela, talvez, tenha escolhido permanecer no mesmo lugar onde me deixou.
Hoje sou como uma ação em viés de alta: ainda acessível, mas com um valor que cresce a cada dia. Ela apostou contra mim — e talvez seja essa a diferença entre nós.
Não temo o futuro, porque possuo o que o mundo capitalista mais deseja, mas raramente compreende: bom gosto, beleza e conhecimento. E o conhecimento é o único poder que não se desvaloriza — a moeda que não se troca, apenas se acumula em silêncio.
Quem observa meus rastros percebe coerência. Há um rumo, uma lógica, uma consistência. E embora não existam certezas, apenas apostas, eu sigo apostando em mim: na minha versão mais elevada, mais bonita, mais culta, mais elegante, mais distinta.
Se tudo der certo — e eu acredito que dará —, convertendo esses atributos não só em capital simbólico, mas também em capital erótico. Porque o cultural, esse, eu já conquistei.
Pode ser que, mesmo depois destas linhas, eu ainda saiba de você à distância — e me sentirei honrado se continuar me lendo, mesmo em silêncio.
Se um dia eu vir que você contrariou tudo o que imaginei — que está feliz, viva, desperta, amando —, talvez eu escreva contrariado, como sempre faço quando preciso elogiar e me proteger ao mesmo tempo. Mas, nesse caso, olharei com ternura.
Há uma sabedoria profunda em saber a hora de dizer adeus, mesmo após onze anos.
E, desta vez, eu serei capaz.
Adeus, meu (ex) amor.
