Wagner toca alto, quase invasivo.
ESPOSA
(com dúvida, um pouco insegura)
Esse batom… ficou bom?
O marido, pensativo, a observa. Sem pressa.
MARIDO
(meio desconfiado)
Me dá…
Pega o batom, retoca os lábios dela com movimentos lentos, precisos. Um gesto quase ritualístico. Depois, sorri e faz sinal para ela morder os lábios, tirar o excesso.
Ela obedece. Eles trocam um olhar — mistura de afeto e distância.
Sem dizer palavra, ele se inclina e a beija, breve, intenso. O som de Wagner cobre o silêncio depois do beijo.
Eles estão sentados, a luz é dura, quase crua. O marido usa um blazer marrom com ombreiras que ressaltam o volume dos ombros.
ESPOSA
(apontando um ponto no blazer)
Tem um branco aqui. Caspa?
MARIDO
(irônico)
Caspa? Eu uso Head & Shoulders.
(em recorte, como um comentário em voz baixa)
(inseri uma propaganda porque o cinema precisa sobreviver)
ESPOSA
(fazendo uma pausa, como se pensando alto)
Então… é um cabelo branco.
Ela tira o ponto, olha para a cabeça dele, como se fosse um macaco que busca piolho no filho.
ESPOSA
(com um sorriso meio cortante)
Se continuar assim, ano que vem trabalha de Papai Noel.
ESPOSA
(brincando, mas com um tom seco)
Ajuda a renda… Seu filho, Vivian, come demais.
O marido acorda, meio fora do tempo. Vivian está no chão, com um livro aberto e um pedaço de pão na mão.
MARIDO
(bocejando, meio distraído)
Dormiu bem?
VIVIAN
(com boca cheia)
Tô com fome de novo.
A mãe entra, trazendo pão francês e Toddy numa sacola plástica.
MÃE
(entregando o pão)
Esse pão tá bom hoje.
Vivian molha o pão no Toddy, dá uma mordida, faz um som de insatisfação e diz: “Esse pão tá mole. Não é de hoje”.
MARIDO
(irônico, quase provocando)
Você também molha o pão e quer ouvir o “crak”, é?
Todos sorriem. O silêncio cresce. A câmera fixa nos rostos, captando o tempo que parece se esticar, o banal transformado em cena quase filosófica.
