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DAVE LE DAVE
SIM, ELE MESMO
Textos


EM QUAL SENTIDO DE AMOR EU A AMO?

 



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A LINGUAGEM E SUAS LIMITAÇÕES

A linguagem é tão imprecisa e insuficiente quando tentamos traduzir o que sentimos. Dizemos que amamos alguém — mas que tipo de amor é esse? O mesmo que sentimos por uma planta, uma canção, um gesto, um cão, nossos pais ou pela alma gêmea que habita nossos sonhos? Usamos uma só palavra para tudo isso: amor. E talvez esse seja o maior equívoco da humanidade — chamar com o mesmo nome o que, em essência, possui naturezas tão distintas.

 


 

EROS: O DESEJO PELO AUSENTE

A primeira definição de amor que a filosofia nos deu foi Eros, em Platão. O amor erótico, o desejo do que está ausente, do que nos falta, daquilo que queremos possuir. É um amor que nasce da carência — e por isso mesmo é movimento, busca, impulso vital. Não à toa, tantos motéis levam o nome de Eros: é a expressão do querer o que não se tem. Platão relaciona esse amor ao conhecimento — porque, assim como o saber, ele nunca é completo. Como dizia Sócrates, “só sei que nada sei”. E esse amor de Eros, esse amor que persegue o inatingível, talvez seja o que eu sinto por ela.

 


 

PHILIA: O AMOR PELA PRESENÇA

Mas Aristóteles — discípulo e, ao mesmo tempo, contraditor de Platão — dizia que o verdadeiro amor é Philia, o amor pelo que está presente. É a amizade, o companheirismo, a alegria serena da convivência. Um amor que gera a eudaimonia, a felicidade da alma em harmonia consigo mesma. Não é prazer hedonista, mas prazer de estar em paz. E, no entanto, como ela está ausente, meu amor por ela não pode ser Philia. É desejo, vertigem, saudade: é Eros.

 


 

EROS ANTES DA FILOSOFIA

Antes de Platão e Aristóteles, porém, Eros já existia na mitologia. Um dos primeiros deuses, nascido quando Gaia (a Terra) foi separada de Urano (o Céu) por Cronos, o deus do tempo. Desse corte nasceu o próprio tempo — e, junto dele, o impulso vital que gera toda a vida. Os antigos chamaram esse impulso de Eros. Ele é, portanto, o princípio do desejo e da criação. O mesmo fogo que arde em mim quando penso nela.

 


 

FREUD E O DESEJO COMO FORÇA DE VIDA

Mais tarde, Freud reinterpretaria Eros como libido — energia sexual, instinto de vida. O amor e o desejo se entrelaçam: um alimenta o outro. E é por isso que, quando eu a desejo, não a desejo apenas com o corpo. Desejo abraçá-la, beijá-la, senti-la com a alma, com a pele, com os sentidos todos. Quero percorrer seu corpo como um navegador sem bússola nem mapa, guiado apenas pela vertigem. Quero ir e vir em suas curvas como uma onda que nunca se forma. Sim, é esse tipo de amor que sinto: o amor de Eros — mas de um Eros que não se reduz ao sexo, e sim à comunhão de almas através do toque.

 


 

ÁGAPE: O AMOR QUE SACRIFICA

Há, porém, outro amor — aquele que sentimos pelos pais, pelos filhos, pelos animais, por quem amaríamos a ponto de dar a própria vida. Esse é o Ágape: o amor do sacrifício, o amor divino, o amor de Deus pelos homens. É o amor que Jesus ensinou quando disse “amai-vos uns aos outros como a vós mesmos”. E, de certa forma, mesmo sem conhecê-la plenamente, mesmo sendo meu amor por ela um Eros — e não um Philia — há também um traço de Ágape nele. Porque reconheço nela o espelho da minha alma, e só posso amá-la como amo a mim mesmo.

 


 

STENDHAL E AS FORMAS HUMANAS DE AMAR

O escritor Stendhal também tentou classificar o amor. Em seu livro, dividiu-o em quatro formas: o amor-paixão, intenso e volátil como o de Romeu por Rosalina — que, pouco depois, se transforma em amor por Julieta; o amor-gosto, que se baseia na admiração pela beleza; o amor-vaidade, aquele que transforma a pessoa amada em troféu, algo para exibir — talvez o mais superficial e cruel; e o amor-sexual, o puramente físico, que se consome no prazer.

 

Essas definições são belas, mas também imprecisas — porque, na vida real, os amores se misturam. Posso ser apaixonado por ela e, ao mesmo tempo, sentir orgulho dela. Posso achá-la linda e desejar seu corpo, sem jamais reduzi-la a uma mercadoria. Porque desejo e respeito não se excluem: se completam. E o verdadeiro erotismo nasce exatamente dessa tensão entre o sagrado e o profano.

 


 

A IGNORÂNCIA MASCULINA SOBRE O DESEJO FEMININO

O problema é que muitos homens confundem o amor com a posse e desconhecem a sexualidade feminina. Acreditam que o desejo da mulher é idêntico ao do homem — quando, na verdade, o corpo dela desperta aos poucos, com a paciência e o cuidado que o amor exige. Enquanto muitos encerram o sexo em quinze minutos, o corpo da mulher leva cerca de quinze minutos apenas para se preparar para o prazer. E é nessa pressa que morre o romantismo.

 


 

O ORGASMO QUE COMEÇA NO AFETO

O orgasmo feminino começa muito antes do toque. Ele nasce no elogio sincero, na atenção ao detalhe, na delicadeza do olhar. Está no cuidado após o amor — em perguntar se ela está com sede e trazer um copo d’água à noite; em preparar um café especial antes que acorde, apenas para recebê-la com ternura. Tudo isso faz parte do sexo. Tudo isso é amor.

 

 

 

 

 

 

ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL)
Enviado por ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL) em 31/10/2025
Alterado em 31/10/2025
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