
Como dormir depois de uma noite dessas? Amanhã, às sete, tenho dentista — e normalmente, antes das seis, já estou de pé para começar minha rotina. E nela, o sono, a dieta e a atividade física são inegociáveis. Mas hoje há algo diferente. Sinto um quentinho no coração que eu poderia atribuir ao amor pelo Palmeiras — mas sei que não é só isso.
É um sentimento dúbio. Se eu pudesse escolher, talvez preferisse não sentir. Minhas intenções são as melhores, e nem sei se posso chamar de “amar” algo que imaginei — uma pessoa que mal conheço. Mas existe uma intuição, uma conexão tão intensa que me faz crer que ela também deve sentir algo, ainda que silenciosamente. Essa crença me impele a escrever, mesmo quando nasce o conflito: quero que a pessoa sobre quem escrevo se sinta bem, nunca desconfortável. Não quero atrapalhar seu convívio, sua paz. E, no entanto, como disse Lutero em sua carta à Igreja Católica: “Aqui estou eu, e não posso agir diferentemente”.
Quando penso nela, sinto um apaziguamento raro — aquele prazer sereno de que falava Epicuro, a ataraxia da alma. Um estado de leveza que vem não da posse, mas da contemplação. Só que sei que não tenho o direito de impor minha felicidade à custa da infelicidade de outro, ainda que essa presença me pareça tão próxima quanto distante.
Ainda assim, há algo que me move: a convicção de poder fazer alguém feliz, mesmo que de forma discreta, indireta, silenciosa. Eu nunca divulguei meu site para amigos ou familiares. Não coloquei o link em lugar algum. Se ele chega até alguém, é porque essa pessoa o procurou — organicamente. Isso me absolve: a curiosidade nasceu de um interesse legítimo. Meu Instagram segue menos de cem pessoas; uso-o como espelho do meu processo, como instrumento para continuar evoluindo. Através dele e da minha página, escrevo uma história em imagens e palavras — não para alguém em específico, mas para todos. Ainda assim, saber que meus textos chegam a ela me dá um prazer inconfessável. Porque, de algum modo, sinto que eles a fortalecem: elevam sua autoestima, resgatam sua autoconfiança, reacendem a luz que a rotina apaga — e, quem sabe, até revitalizam seus compromissos afetivos legítimos.
Esse é o papel que me cabe: o do telespectador tardio que chegou depois, e por isso não pode ser protagonista. Ainda são vinte para as três. Restam-me três horas até o amanhecer. Talvez eu ouça o repertório do jogo, talvez escreva sem parar — não sei se publicarei agora, diante da madrugada vazia, ou se guardarei nas “gavetas” para amanhã, como se faz no jornalismo. Porque o público a quem escrevo, agora, dorme.E mesmo assim, cultivo a esperança secreta de que, em algum momento do dia, ela me leia — por curiosidade, acaso ou destino.
Mas há algo nas mulheres que me intriga e fascina: essa disciplina de não ceder que o orgulho lhes ensina. Eu, no lugar delas, confesso — não conseguiria conter a ansiedade. É uma força que admiro.
Sei que parece ridículo falar em amor por alguém que não conheço. Talvez seja apenas a projeção de uma ideia. Mas, no fundo, desconfio que o que amo mesmo é a própria palavra amor. E escrevo a você — que ouso dizer que amo, mesmo antes de conhecer — como quem confessa um sonho que se tornou carne pela fé.