
Se ela pudesse ver como fica bonita sorrindo… ah, então talvez sorrisse mais vezes, um riso solar que ilumina tudo ao redor, radiante, mas cuja luz não vem de fora — vem de dentro, da essência que não se pode tocar, apenas sentir.
Acho que é por isso que gosto tanto de humor: uma mulher com um riso tão bonito, com o rosto fechado, é quase um insulto à Criação. É como uma orquídea que floresce no meio do deserto, desfilando seu perfume e aroma para ninguém em particular, apenas para existir em sua perfeição silenciosa.
O sorriso dela é assim como o de Angelus Silesius falava sobre a rosa:
ele é sem porquê — floresce porque floresce,
sem maiores explicações.
Sinceramente, se eu fosse mulher, gostaria de me ler. Escrevo justamente o que eu gostaria de escutar se estivesse no lugar dela. Mas, claro, é sempre impreciso: a mulher é complexa demais para ser descrita por alguém banal como um homem. Ela carrega dores que não se comparam, como o parto, mas principalmente ter que lidar com os homens.
Para procriar e ter filhos, ela precisa lidar com os homens — e confesso que nem consigo imaginar, porque acho a aparência de um homem nu repugnante, a antítese do feminino. Só tolero o meu próprio corpo, e ainda assim com reservas. Agora, que meu abdômen é definido e há massa muscular no lugar certo (menos nos glúteos, verdade) percebo que a perfeição exige escolhas: não se pode ter tudo, e talvez isso seja belo também.
Uma coisa é vaidade, outra é inveja. Tenho a virtude de nunca sentir inveja — nunca desejo o que é dos outros: nem corpos, nem bens materiais, nem mulheres. Sei que, no fim, tudo depende de mim. O ciúme, porém, é diferente: depende de fatores que fogem ao meu controle. Quando desejo uma mulher, não sinto inveja, mas ciúmes, porque acredito que aquilo combinaria mais comigo e está com outra pessoa… e isso, confesso, é uma chama que não se apaga com razão.