
Imagina eu participando desse debate desigual — trinta garotas, trinta mulheres, todas apaixonadas por mim.
Trinta corações contra um.
Seria como defender minha tese de mestrado diante do júri mais sensível e imprevisível do mundo.
A tese, aliás, é simples: cada mulher é especial — cada uma à sua maneira — mas algumas são mais especiais do que outras.
Se encantei cada uma, talvez tenha dedicado a ela um texto exclusivo; e se escrevi, é sinal de que foi única.
O único pecado imperdoável seria um texto que não estivesse à altura dela.
E, ainda assim, sempre há uma mais especial entre todas.
Por um longo tempo, foi uma — todos sabem quem.
Mas o encanto acabou como naquele experimento em que colocam um peixe para nadar em círculos, sem chegar a lugar algum.
Amar o que não se move em nossa direção é nadar num aquário de vidro, acreditando no oceano.
O desencanto veio com o tempo, porque nenhum ser vivo suporta movimentos fúteis.
É difícil amar o que está longe, o que é ausente, o que é improvável.
Essa escolha nunca é racional; se fosse, seria cínica.
É o coração quem decide, às vezes contra toda a lógica — e, ironicamente, escolhe quem já pertence a outro.
Talvez meu cérebro apenas tente compensar: pensa que, se aquela está distante, ao menos esta está perto —
close — perto demais, como Natalie Portman de peruca rosa em “Closer”.
E por isso, talvez, chama tanto a minha atenção.
Poderia ser a que tem nome de seriado, mas ela é orgulhosa — e há “estados” nos separando.
A jurista, fria e tropical, contenta-se com as leis e com alguém que saiba recitá-las, como um paliativo de mim.
E a professora de sociologia? Foi em busca da paz — segundo ela mesma — e nunca mais voltou.
O curioso é imaginar que alguma delas talvez me leia agora.
Mas aquela que eu mais queria que me lesse — essa, justamente — talvez não leia.
A mais proibida é sempre a mais próxima.
Trinta garotas pode soar exagero. Talvez tenham sido trinta ao longo da vida, talvez mais.
Há também as que amam em silêncio — que guardam o meu nome em um caderno empoeirado.
Essas são as mais misteriosas, as mais ternas.
E se eu soubesse quem são, escreveria sobre elas também.
Pensando bem, talvez não fosse 1 Dave vs 30.
Talvez fosse 1 Dave vs 60.
Ou 1 Dave vs ele mesmo.
Porque, no fim das contas, o adversário real de todo homem que ama demais é o próprio reflexo —
esse espelho que devolve o que o coração quer ver.