
O Instagram acabou com a espontaneidade do amar.
O flerte nas redes sociais mereceria ser estudado por um sociólogo especializado — alguém tão sagaz quanto Michel Alphoroso, o chamado “sociólogo dos ricos”. Talvez esse novo pensador, dedicado às relações virtuais, devesse ser batizado como o sociólogo dos idiotas.
Hoje, o “galanteio digital” se resume a uma sequência de curtidas em fotos antigas da pretendente. Os mais criativos arriscam um 🔥 ou 🥰, como se esses pequenos gestos substituíssem o encanto de uma frase bem construída. Não me surpreende que uma oração com sujeito, verbo e objeto já desperte desconfiança; e se contiver uma coordenada ou subordinada, então, merece bloqueio — ou até denúncia por comportamento suspeito.
A instituição dos stories e a obsessão por saber quem visualizou o perfil assassinaram o mistério do desejo. Esse impulso de stalkear, de medir curtidas, estatísticas, de identificar cada olhar que nos observa — tudo isso gera uma falsa sensação de prazer. Dopamina e endorfina se misturam, e o que antes era emoção torna-se um gráfico de engajamento.
Mesmo que eu deseje profundamente que uma pessoa específica me leia, eu odiaria existir em um lugar onde uma ferramenta pudesse me dizer, com exatidão, quem visitou o meu perfil.
Gosto do mistério, da incerteza, da desconfiança. Do ciúme, da ansiedade, da espera por um vestígio. Tudo isso é humano — e necessário ao amor.
Quando percebo que essa tensão desapareceu em um relacionamento, sei que é hora de partir. E talvez essa despedida ou chegada venha no gesto mais simbólico da nossa era: um bloqueio no Instagram.