
Se eu lesse esse roteiro em uma oficina de roteiros, reprovaria — não por faltarem tramas, mas porque a verossimilhança se perde no excesso. A cena começa com um recado doméstico: algo no telhado precisa ser consertado. O Gugu, de manga arregaçada até os ombros, ergue-se com a firmeza de quem quer mostrar competência. “Amor, deixa comigo...”, diz ele, e o beijo que dá na boca da mulher é quente, quase um juramento. Um tapa no quadril — gesto bruto, quase de posse — pretende marcar cuidado e virilidade ao mesmo tempo.
Ele sobe a escada, alcança a telha e começa a desparafusar. O parafuso está preso. Gugu aplica toda a sua força, a mesma que costuma usar nas horas de intimidade, acreditando que a obstinação é virtude. O parafuso cede — e, no instante em que a resistência termina, a escada escorrega. Perde o apoio do pé, inclina-se, e Gugu despenca. Bate a cabeça no chão. Morre — estupidamente — por causa daquela demonstração de macho que confundiu coragem com invulnerabilidade.
O que essa morte nos ensina? Antes de tudo: conhece-te a ti mesmo. A filosofia clássica não é elegância vazia quando se aplica às pequenas decisões cotidianas. Conhecer nossos limites é entender que há gestos que pertencem a outros; há ofícios que exigem habilidade, ferramentas e seguro. Quando o amor pede um conserto no alto do telhado, o cuidado pode ser lembrar: não preciso provar nada. Posso ter a vontade, mas também posso escolher a prudência.
No meu lugar, se minha mulher pede para arrumar algo no telhado, eu respondo: resolvo, sim — mas com inteligência. Faço uma lista de prestadores de serviço; chamo quem tem equipamento e responsabilidade. Às vezes acender a churrasqueira virou um ato de risco: alguns tentam bancar o herói e acabam feridos. Cada um com sua vocação. Eu prefiro pagar, observar, e se algo der errado, escrevo em segurança. Eu escrevo; consertam os outros.
Dessa combinação de vaidade mal calculada e de soluções práticas me surgiu um projeto: um aplicativo que funcione como um iFood ou um Uber, mas para pequenos serviços domésticos. Pedreiros, carpinteiros, montadores, eletricistas autônomos — todos cadastrados; com um toque, contrata-se o serviço. O app seria um mediador entre quem precisa e quem faz, cuidando de pagamento, avaliação e segurança. Eu ganho uma comissão, repasso uma quantia justa ao prestador, sem vínculo empregatício. Posso chamá-lo de iFIX.
E já que estamos em tom confessional: não ouse roubar minha ideia, milionário leitor. Este texto tem copyright; eu a reivindico e processá-lo-ei.
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