
DAVELEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BR
Quando vejo nossas irmãs e irmãos cristãos comemorarem uma centena de mortes, enche meu coração de tristeza. Isso não é um pensamento muito cristão; talvez seja resquício da lei de talião do Velho Testamento — um deus belicoso, punitivo. Eu prefiro me apegar à atualização da Bíblia e aos ensinamentos de Cristo no Novo Testamento. Nosso estado é laico, mas não anti-religioso, não anti-espiritual ou anti-humanitário.
Se, no dia do Juízo Final, até Deus julgará os pecados de cada pessoa e, em Sua infinita bondade, deu Seu próprio Filho para oferecer nossa capacitação ao arrependimento, quem é o homem, quem é a polícia, para matar aquilo que Deus criou e estabeleceu? O homem se colocando como carrasco maior que o próprio Deus, e nossos irmãos crentes rejubilando-se pela morte de outro? Cabe a Deus julgá-los e puni-los no momento certo, não ao homem. Esse tipo de pensamento vingativo distancia pessoas pacíficas e de bom coração de Deus.
Veja um caso que exemplifica o perdão divino na Suécia, não por coincidência o país com maior IDH do mundo. Houve um atentado em que um homem entrou em um acampamento e matou crianças com uma escopeta. Ele atentou contra o bem mais sagrado e, mesmo sem demonstrar arrependimento, a lei sueca não o matou, pois isso não faz parte de sua legislação. Pelo contrário, ele está numa cela digna, com condições de estudo e acompanhamento, inclusive um Playstation — enquanto o país mantém suas convicções e humanidade intactas. Eu sei que é aviltante e esse exemplo nos ofende no que temos de mais intimo, talvez ele nunca se arrependa, mas Deus o julgará. Ao agir assim, muitos outros criminosos podem se arrepender e voltar à sociedade. E no grande julgamento, Deus decidirá quem merece punição eterna.
Sinceramente, só a ideia de eternidade já me parece uma punição, ainda mais com sofrimento; mas os planos de Deus são tão superiores que nem consigo imaginar o que nos espera...
Outro exemplo vem da Inglaterra: para viciados, existem centros que oferecem não só a droga, mas também monitoramento com enfermeiros, garantindo que não ocorram tragédias por overdose. Isso diminui o uso de drogas e preserva vidas; alguns recuperam-se e contribuem para a sociedade. Outros infelizmente não, mas o governo cumpre seu papel humanitário. Não vale a pena perder, talvez, um grande intelecto que, por um infortunio, caiu no vício. Esse pensamento é elevado e benevolente demais para muitos cristãos que ainda defendem a lei de talião.
Eu prefiro acreditar no que Cristo diz: no perdão e na capacidade de restituição. Ele acolheu adúlteras e prostitutas que se tornaram Seus discípulos. Não consta que Cristo tenha atirado a primeira pedra ou dado a primeira bala, mas sim que disse: “Aquele que não tiver pecado, que atire a primeira pedra”. Se essa lei fosse aplicada verdadeiramente, não haveria mais mortes no mundo.