“O horror, o horror…” Coração das Trevas - Joseph Conrad
Essa notícia trágica me fez lembrar o poema de Drummond: “Hoje não cantaremos o amor.”
Um dia como esse não merecia falar de amor. Mas eu insisto.
Mesmo diante da tragédia, eu resisto — e hoje eu só queria falar de coisas bonitas.
Mas a brutalidade da realidade me obriga a dizer algo, porque o silêncio seria cumplicidade.
Falam que “não existe amor em São Paulo.”
E no Rio?
Amor eu não sei se existe, mas ódio há — e muito.
Desde que o ex-governador Witzel comemorou uma morte dando um soco no ar, igual fazia Pelé, como se tivesse marcado um gol de placa, e disse que era preciso “dar tiro na cabecinha”,
o Cristo Redentor, em vez de abrir os braços, parece fazer o sinal da cruz.
A solução fácil para problemas complexos virou rotina:
basta uma chacina.
Mas esse banho de sangue resolveu o crime?
E as milícias — quem as combate?
Para a favela, vocês são “tigrões”;
contra as milícias, são “TWO TWO K ?
Que coragem seletiva é essa?
Adoniran Barbosa precisaria de um adendo na sua música:
“Seu olhar mata mais que a polícia do Rio de Janeiro.”