
Ninguém é obrigado a produzir provas contra si mesmo, mas eu tenho o site DAVELEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BR, que contraria esse direito inviolável da Constituição. É, de certa forma, um arquivo de confissões — provas contra mim mesmo.
Eu escrevo sobre o amor. E é possível que as pessoas sobre quem escrevo leiam o que eu digo — mas também pode ser que não. É justamente por isso que não divulgo essa página e não cito nomes: o intuito do meu site é servir como um diário.
E, sinceramente, eu escrevo o que gostaria que fosse — não necessariamente o que é. O que acontece de fato, eu guardo para mim. Ainda assim, tenho certeza — e essa é minha intenção — de que as pessoas sobre quem escrevo se sintam mais felizes, mais valorizadas, como se estivessem saindo do tédio cotidiano para entrar num território de prazer e descoberta...
Um espaço onde eu seguro suas mãos.
O amor é meu principal tema. Mas talvez eu seja, como o pintor do conto O Retrato Oval, alguém que ama mais a própria arte do que a pessoa retratada. No fim, talvez eu ame mesmo apenas a minha escrita — e ame para ter matéria para escrever.
Transformo sentimentos em texto, e pouco me importa se a realidade corresponde ao que descrevo: o que me importa é o que o amor me faz criar.
Identifico-me com o protagonista de O Homem que Amava as Mulheres, de Truffaut. Ele não era bonito, mas tinha charme e sabia escrever — e isso bastava para ter sucesso com o sexo feminino. Sempre foi solteiro, e talvez essa fosse a sua forma de liberdade.
A diferença é que eu sou mais discreto, talvez para não ter o mesmo fim trágico.
Penso também em Pessoa — aquele que escrevia compulsivamente, como se viver e escrever fossem a mesma coisa.
Quando morreu, encontraram um baú com mais de dois mil textos, pedaços de papel assinados “B.S.” — Bernardo Soares, seu heterônimo que escrevia prosa.
Esses fragmentos se tornaram o Livro do Desassossego.
Quem sabe, um dia, alguém faça o mesmo com os meus escritos e monte um compêndio que me imortalize também?
Nietzsche dizia que Kant, Schopenhauer e ele próprio justificavam o insucesso com as mulheres apelando para o intelecto. E é cômico imaginar um filósofo casado. Eu não concordo, mas também sou solteiro — não por convicção, mas por falta de opção.
Talvez eu seja um Antônio Bandeira mais elegante e bonito, que ainda espera por essa grande paixão capaz de dissolver até as convicções mais firmes.
Há também a imagem dos filósofos que Aristófanes pinta em As Nuvens — sujeitos avoados, com a cabeça no céu e os pés longe da realidade.
Ou como Tales de Mileto, que, de tão distraído, caiu num poço.
Talvez estivessem apenas pensando no amor — e em como encontrá-lo.
A filosofia ensina muitas coisas, mas não ensina a amar.
Eu, por exemplo, jamais arrumaria confusão no meu bairro por causa de uma mulher, por mais desejo que sentisse. Não valeria o risco.
Mesmo quando vejo as colegiais passando na saída da escola durante minhas caminhadas, ou as jovens na academia — por mais tentador que fosse — não valeria a pena.
Posso ter aparência jovial, poucos anos a mais do que elas e até uma mentalidade menor do que a delas…
Mas o risco não compensa. O amor, para ser belo, precisa ser consciente.
No fundo, talvez o amor e a arte sejam a mesma coisa: ambos pedem entrega, mas também distância; paixão, mas também lucidez.
Escrevo para tocar, não para possuir.
Escrevo porque, quando amo, as palavras me traem — e quando não amo, é nelas que me reencontro.
E se o amor for, no fim, apenas o nome mais bonito que damos ao impulso criador — então sim, eu confesso: amo demais.
Mas é a arte que me faz permanecer.