
Eu não sei se vocês estão percebendo, mas venho tentando escrever de forma cada vez mais compreensível para o leitor comum — alguém sensível, que talvez não tenha muita familiaridade com literatura ou pensamento filosófico.
Não por falta de capacidade, mas simplesmente porque essa pessoa pode nunca ter tido a oportunidade de se aproximar dessas coisas.
Minha escrita carrega algo de feminino. Se eu fosse, de fato, um autor formal, minhas protagonistas seriam mulheres — como em Flaubert. Gosto de protagonistas femininas. Woody Allen, por exemplo, nos deu filmes belíssimos centrados em mulheres.
Isso se resume à minha predileção por imaginar mais facilmente criar uma filha mulher. Penso em uma personagem chamada, digamos, Juliana — sei lá, um nome que não sei por que está na minha cabeça há alguns dias e que acho bonito — e já a vejo educada como uma dama. Se for minha filha, é provável que a mãe também seja bonita (não existe essa coisa de Juliana Jr., né? Como nossa sociedade patriarcal é idiota!); e, por isso, dificilmente ela aceitaria um idiota que a trate mal, ou que apenas ouça funk e trap e a desrespeite com base no comportamento que seu pai trata a sua mãe.
Crianças copiam tudo.
Mesmo na adolescência, Juliana — olharia para sua família e certamente não aceitaria um energúmeno fazendo parte dela. Tenho plena confiança na capacidade de educação e na maturidade do sexo feminino. Meninos, por sua vez, parecem-me mais imprevisíveis: você pode dar o melhor e, ainda assim, eles podem fazer besteira — ainda mais se puxarem ao pai.
Engraçado: mesmo adaptando o texto para ser mais claro, o estilo continua nitidamente reconhecível como meu. Mesmo sem assinatura, sem a identidade visual peculiar, arrisco dizer que as pessoas relacionariam esses textos a mim.
Sei que sou múltiplo — que o mundo e o ambiente me influenciam e me geram várias versões de mim mesmo — como Fernando Pessoa que criou heterônimos: Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos, Bernardo Soares. Mas quem é, afinal, a pessoa por trás do Pessoa?
Assim como Pessoa, identifico-me com Shakespeare, autor de personagens que exprimem essa multiplicidade que o senso comum chama de “eu”. No corpo e no cérebro não existe um homenzinho controlando tudo; há apenas um emaranhado de sinapses elétricas.
Isso explica por que eu mudo de estilo conforme meu estado energético: o ambiente e os hábitos básicos refletem-se no controle e na clareza da escrita.
Nada me parece mais tolo do que certos catedráticos que se propõem a definir o que é arte e o que é literatura. Muitas vezes são críticos ressentidos que não sabem criar nada — apenas julgar.
Há quem diga que literatura é apenas aquilo em que se identifica um estilo. Outros inventam regras — quase dez mandamentos da arte — e, se a obra não obedece, passa a não ser arte. Essa postura é redutora.
E então, o que fazemos com livros como O Negro no Futebol Brasileiro, Casa-Grande & Senzala ou com as Confissões de Santo Agostinho? São obras de pensamento; algumas nem contam “história” tradicional, e, ainda assim, são escritas com tal força que é impossível negar seu valor literário.
Uma obra é inútil se não há alguém para lê-la. Dizer que existe uma “obra perfeita” no sentido platônico é ridículo e incoerente. O que importa é a relação — o encontro entre obra e leitor.
É nesse entre — nessa mediação — que algo novo nasce. A obra vive quando provoca diálogo, empatia, quando toca uma sensibilidade.
E é esse diálogo que procuro estabelecer: falar com quem não conhece a linguagem erudita, mas tem sensibilidade para o belo. Se você chegou até aqui, é porque essa sensibilidade habita em você.
Meus textos são feitos com amor e de forma artesanal. Não escrevo para impressionar com erudição vazia; escrevo para tocar, para provocar e para conversar.
Quero que minhas palavras cheguem a quem talvez nunca tenha estudado filosofia ou literatura, mas que sente o mundo com intensidade — especialmente as leitoras, cuja sensibilidade tanto admiro.
Se este texto encontrou você, então já cumpriu parte do seu propósito: criar um mínimo de diálogo entre quem escreve e quem lê.