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DAVE LE DAVE
SIM, ELE MESMO
Textos


TUDO COMEÇOU COM UM BLOQUEIO NO INSTAGRAM

 



DAVELEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BR

 



Esse texto começou com um bloqueio no Instagram.

 

Nietzsche sempre disse que há mais verdade em nosso corpo do que em nossa melhor sabedoria.

Ou seja: as avaliações e julgamentos que o corpo faz com base na relação que estabelece com o ambiente são o que definem nossas ações — e também o que ele transmite às pessoas.

 

Daí decorre que os julgamentos que fazemos partindo de um estado fisiológico doente só poderiam ser maus julgamentos da realidade.

Por outro lado, os julgamentos feitos com um corpo saudável só poderiam resultar em pensamentos igualmente saudáveis.

 

E o fato de eu ter enxergado beleza nessa pessoa justamente agora, quando estou mais saudável e lúcido, revela algo profundo: é como se uma venda tivesse caído e eu, enfim, visse sua verdadeira beleza. Isso, portanto, só pode resultar em algo verdadeiro.

 

Antes, quando minha rotina era disfuncional, a beleza dela me passava despercebida — tanto eu estava envolto em meu próprio ego.

Mas, saudável, consigo ver a beleza real das pessoas à minha volta.


 


 

BLOQUEIOS E REDOMAS

Por isso, não posso julgar de forma negativa minha página do Recanto, criada por causa de uma pessoa do passado que me inspirava profundamente.

Dediquei a ela meu amor — e acredito, quase com certeza, que ainda me acompanha, mesmo tendo me bloqueado no Instagram.

 

Estranhos são os mecanismos de defesa das mulheres para negar o que sentem.

Como se, ao bloquear quem as faz sentir, pudessem bloquear também o próprio sentimento.

Mas o paradoxo é que quem você bloqueia ganha um lugar específico dentro do seu próprio Instagram — uma espécie de lista seleta.

É como colocá-lo dentro de uma redoma de vidro: alguém que, de alguma forma, não passou despercebido.

Ainda mais quando a abordagem é educada, sutil.

 


 

A CENA DE DAVID

Já que citei Era uma Vez na América, a cena que considero mais bonita é quando David, ainda pré-adolescente, espiona sua vizinha — uma menina por quem era encantado — dançando balé.

Quando ela percebe que está sendo observada, se despe, como quem se oferece ao olhar, mas David, em meio à euforia, cai do esconderijo — um buraco improvisado, como uma fechadura simbólica.

 

Ela, mesmo tendo se insinuado, o repreende.

Esse gesto — o "bloqueio", por assim dizer — representa bem o bloqueio feminino: bloqueia, mas continua vendo; continua observando quem a observa; oferece, paradoxalmente, uma fresta para que continuemos a olhar.

 

E eu sei: ela me bloqueou, mas continua me lendo.

Deus está vendo!

 


 

O CORPO SÁDIO E A BELEZA

Agora, essa última — a quem me refiro no início do texto — foi avaliada pelo meu corpo de modo distinto.

O meu corpo, estando saudável, reconheceu sua beleza.

E essa avaliação, feita em estado de equilíbrio, só poderia resultar em algo autêntico.

O oposto da outra, paradoxalmente médica, que, embora devesse cuidar dos doentes, foi avaliada quando eu mesmo ainda estava doente.

 

Essa que chamo de Helena, para preservar sua identidade, me influenciou sem saber.

Um simples gesto dela me trouxe um insight profundo:

Durante o cardio, comecei a ler, ver filmes, me entreter. Assim, associei o exercício ao prazer — e prazer é algo que queremos repetir.

Com o tempo, tornou-se hábito.

Diferente do vício, que é um hábito que nasce da dor e se repete mesmo em prejuízo de nós mesmos.

 


 

ENTRE EROS E PHILIA

Eu sempre a achei bonita, mas o respeito — e a liturgia do convívio — nunca permitiram que me passasse pela cabeça qualquer tipo de aproximação.

Na verdade, até hoje não passa.

Mas isso não me impede de admirá-la, nem de ela me servir de inspiração — sempre de forma polida e respeitosa.

 

Quando ela desapareceu, quando me bloqueou, o simples fato de não poder mais observá-la me trouxe uma tristeza espinosiana — aquela que sentimos quando nossa energia vital cai, e compreendemos a causa: a ausência do objeto que a gerava.

 

Não confunda esse sentimento com amor platônico — que dizem ser o único amor verdadeiro, justamente por não esperar nada em troca.

Nem com o amor cristão, o ágape da esperança.

 

O meu amor por ela é o amor da admiração: o amor de Stendhal, o amor da presença de Aristóteles, a philia.

É o amor de Spinoza, pois é acompanhado da ideia da causa — e eu sei qual é a causa: ela.

 

Ela me faz compreender a ideia de beleza em Aristóteles: essa alegria eudaimonica que sentimos quando algo nos alegra, aumenta nossa vitalidade, e sabemos quem a ocasionou.

É a promessa de felicidade, como dizia Stendhal.

E Thomas Mann completaria: a beleza é uma forma de pensamento.

Então, ela é tão bonita que só poderia pensar muito bem.

 



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ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL)
Enviado por ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL) em 29/10/2025
Alterado em 29/10/2025
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