
Durante minhas caminhadas diárias, sigo sempre o mesmo trajeto.
Não é por disciplina, mas por pura falta de criatividade — até para caminhar, confesso.
E nesse percurso repetido, há algumas semanas, algo novo surgiu: uma doceria.
Minhas caminhadas já duram mais de três meses, e só recentemente essa loja apareceu ali, no mesmo ponto onde antes existia algo que já esqueci o quê, passos antes desse anuncio que gerou a piada que fiz no texto abaixo:
VENDE-SE UMA MULHER! E GANHE UMA CASA GRÁTIS:
https://daveledave.recantodasletras.com.br/visualizar.php?idt=8448448
O que primeiro me chamou atenção foi a fachada: bonita, convidativa.
Mas o que realmente me fisgou — como um olhar que desperta algo adormecido — foi o nome genial estampado na vitrine: BOLEGRIA.

Bolos e alegria.
Simples, direto, quase infantil, mas de uma inteligência encantadora.
E o slogan abaixo, irresistível: “Alegria no pote.”
Naquele instante, a lembrança de Espinosa me atravessou como um sopro de lucidez açucarada.
Pensei em seu conceito de alegria: o aumento da potência de agir.
E no amor, que nasce quando reconhecemos a causa dessa alegria — quando sabemos o que nos fez sentir mais vivos.
A “Bolegria”, portanto, me fez amar — antes mesmo de provar qualquer doce.
Ela aumentou minha potência de agir.
O curioso é que essa alegria veio não só da loja em si, mas do anúncio que a apresentou ao mundo.
Um cartaz cheio de doçura implícita e explícita, sensual à sua maneira — como um convite sutil que desperta o desejo antes do gosto.
Senti vontade de conhecer cada detalhe, como se entrar ali fosse atravessar um limiar entre o apetite e a contemplação.
Apesar dos “pecados calóricos”, havia um charme francês, quase afetivo, que destoava do bairro do Jaraguá.
A beleza da vitrine, o brilho das cores, o nome espirituoso — tudo parecia feito para me seduzir, e conseguiu.
Afinal, como resistir a uma promessa tão simples e tão humana: alegria em um pote?
Aquela cena inteira — o marketing, o aroma imaginado, o nome da loja — tornou-se um pequeno acontecimento filosófico.
Senti-me tomado pela definição de Espinosa: amamos aquilo que nos faz crescer por dentro, que desperta em nós o impulso de continuar.
E eu, ali, parado diante da vitrine, percebi que já amava.
Não o bolo, que ainda não provei.
Mas a ideia. O gesto. A sutileza.
Talvez o que eu amasse fosse o conjunto — o nome, o anúncio, o brilho discreto de algo bem feito.
Ou talvez fosse a própria alegria, essa potência de agir que a simples visão de um doce pode provocar.
De todo modo, o encanto é inescapável.
A “Bolegria” não é apenas uma loja — é uma metáfora: a promessa de que o amor, o prazer e o pensamento podem caber, sim, dentro de um pote. Ou em uma pessoa!