
O grande erro de Eva — aquela que, segundo a tradição, trouxe o pecado ao mundo — não foi comer o fruto proibido, mas ter dado ouvidos à serpente, que apenas pediu um minutinho da sua atenção.
E foi assim que ela se deixou seduzir pela linguagem.
A serpente não ofereceu o fruto, mas a palavra — a verdadeira árvore do conhecimento.
Mais tarde, Nietzsche perceberia em Gênesis o grande medo dos primeiros sacerdotes: o medo do poder feminino de duvidar, de questionar, de desejar.
A mulher, para eles, representava o perigo da desconfiança e da sensualidade.
E a linguagem — longe de ser um dom divino — tornou-se um instrumento de poder, não contra Deus, mas contra o povo, nas mãos dos que dominavam o discurso religioso.
Eu também não nasci com o dom da linguagem.
Não é algo inato — é um talento que eu cultivei.
Sou mais leitor do que escritor, e talvez por isso saiba escrever: porque conheço muitos estilos, muitas vozes.
Até hoje, quem bate de porta em porta — pregando, vendendo ou tentando convencer — começa com a mesma frase:
“Me dá só um minutinho da sua atenção.”
E eu, de certa forma, faço o mesmo.
Não sou o mais bonito, embora seja elegante.
Não sou o mais atlético, embora seja definido.
Nem o mais inteligente, embora seja espirituoso, polido e engraçado.
Mas sei que, com essas características, só preciso de um minutinho da atenção de uma mulher.
Se ela me ouvir — mesmo que por pouco tempo — o resto é comigo.
Basta que me escute, mesmo em silêncio, mesmo que responda apenas com monossílabos.
Porque, com o tempo, os diálogos crescem, as palavras se multiplicam… e no fim, é ela quem me procura, é ela quem quer falar comigo.
A diferença está no conteúdo.
Na forma de falar.
Menos em quem fala — mais no modo como fala.
Num mar de banalidades, onde as pessoas demonstram amor com bens materiais, e não com gestos — muito menos com palavras — alguém que ama pela linguagem se torna raro.
E por isso mesmo, essencial.
Uma frase bem colocada, espirituosa e sincera é difícil de ignorar.
Toda mulher, por mais que não esteja acostumada a esse tipo de linguagem, é mulher — e a essência do feminino é poética.
Mesmo quando vulgar, ainda guarda uma sensibilidade inata para o belo.
Ela reconhece o gesto, a palavra, o olhar.
Há algo na mulher que percebe a beleza antes de compreendê-la.
A linguagem do amor é muito específica.
Ela está para o amor assim como a prosa está para o sexo, e a poesia para o êxtase.
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