
Não é bom ser nem muito inteligente, ou superdotado, nem muito “abaixado” — senão, ambos podem gerar solidão.
Mas quem é inteligente de verdade sabe transformar a solidão em solicitude— aquela solidão escolhida, e não sofrida. A solidão criativa.
Vou dar dois exemplos. Quer dizer, três, começando por mim.
Na minha época não havia essa coisa de testes de superdotação ou diagnósticos de autismo, nem mesmo avaliações de QI.
Mas havia sinais de inteligência precoce da minha parte — como em um episódio que meu irmão gosta de citar.
Eu devia ter uns dez anos quando jogava o ótimo jogo da Estrela chamado Combate. Sabe? Aquele de exército, em que o objetivo é capturar a bandeira adversária ou eliminar todas as peças.
Jogando contra meu irmão, certa vez, tive uma estratégia digna de Napoleão. O mais comum era colocar a bandeira nas pontas ou no fim do tabuleiro, para dificultar a captura. Mas eu, inovando, coloquei logo na primeira fileira do tabuleiro — porque pensei que o adversário nunca imaginaria isso.
E funcionou. Quando revelamos finalmente onde estava minha bandeira, meu irmão ficou perplexo: estava na primeira fila.
“Raposa, esse negro!”, disse ele — como costuma me chamar até hoje.
De certa forma, a inteligência é potencialidade — um piso, não um teto de capacidade.
O que determina se você vai transformar inteligência em habilidade é sua constante atualização. É a energeia que se transforma em dýnamis, como diria Aristóteles.
Veja o Roger, do Ultraje a Rigor. Dizem que ele tem um dos QIs mais elevados entre os mortais. Hoje, isso virou símbolo de escárnio, já que se transformou simplesmente em escada do Danilo Gentili.


Mas quem escuta o primeiro álbum do Ultraje — que só tem clássicos — pode até acreditar que aquelas músicas só poderiam ter vindo de um intelecto altamente privilegiado.
Na festa do meu sobrinho, que tem autismo — e, portanto, suas dificuldades —, conheci um menino de uns oito anos que é superdotado. Por isso, estuda em classes acima.
Ele não consegue conversar com crianças mais jovens; por isso, fica isolado. Eu estava jogando fliperama na festa, e ele pediu para jogar. Deixei-o ganhar, mas, como ficou se gabando, precisei colocá-lo em seu devido lugar.
Ele apelou, pegando o Bison — o personagem mais apelão —, mas mesmo assim perdeu. Então, disse que iria brincar.
Você vê que ele realmente é inteligente ao reconhecer a derrota (rs). É muito educado, mas solitário.
Do outro lado, está meu sobrinho. Ele tem dificuldades motoras, sociais e de aprendizado, devido ao leve autismo que tratamos desde cedo — para que isso não o prejudique no futuro.
Embora goste de ler, e provavelmente já tenha lido mais livros que nossos últimos presidentes — talvez o triplo de Bolsonaro —, ele ainda tem suas dificuldades


Prefere brincar sozinho, desconhece a própria força e acaba machucando os amiguinhos. Por isso, tivemos que tirá-lo do jiu-jítsu.
Para ele, é brincadeira — uma forma de mostrar carinho. Mas os pais das outras crianças não entendem assim…
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