
Eu necessito do amor para me inspirar. De sempre estar nesse estado patológico de eterna admiração para conseguir escrever, produzir, criar. E o amor eros, sempre pela falta, se o amor torna philia, isto é, presença, a chance de eu me desencantar é muito grande.
Eu não sei se é uma virtude ou defeito que tenho de não conseguir romper. Então, eu mostro desinteresse até a pessoa se desvanecer por completo e, em último recurso: eu bloqueio. Esse pêndulo de tédio entre não ter e a frustração da decepção de quando temos.
E a pessoa que é uma eterna falta — é irônico, e até burrice — que eu tenha deixado de viver relacionamentos reais, como a professora de sociologia que, sem pudor, demonstrou seu sentimento, por causa de uma ilusão que eu tenho de alguém que sempre esteve ausente.
As mulheres têm isso: eu bloqueio por tédio e para não magoar. As mulheres bloqueiam como autodefesa, proteção, para tirar do alvo e não ter de lidar com a dor da perda. Como se, deixando de me ver, eu brilhasse menos.
Eu prefiro viver a rejeição desde que real, do que uma história pela metade, um amor não vivido, algo que poderia ter sido.
Mas eu tenho a consciência de que o problema sou eu, não as mulheres. Eu tenho que me adaptar a elas, e não o contrário. Elas são o que são — e mesmo as bonitas — costumam ter repertório exíguo, pouco conteúdo e serem um tanto banais.
Mas se eu não aceito esse fato, eu acabaria sozinho. Por isso, acabo relevando num primeiro momento. Porém, a minha dificuldade em manter um relacionamento duradouro é que ninguém suporta alguém desinteressante com o passar do tempo.
Você já decorou o rosto da pessoa, sabe recitá-la de cor, de lembrança, todas as curvas do seu corpo, onde ela sente prazer, o que gosta e o que não gosta. E quando não há mais novidades, o que sobra? Já que as mulheres, uma vez desinteressantes, não costumam mudar.
Além do mais, se o seu mundo — ou seu homem — não exercer uma boa influência...
Engraçado que as maiores brigas em que eu me meti, na juventude e adolescência, claro, foram por causa do sexo feminino. E uma própria garota me alertou que não se briga por mulher... conselho que eu nunca consegui seguir, apesar de ser verdadeiro.
A veleidade estética faz eu adquirir muito profundamente esse amor-gosto, amor pela beleza, promessa de felicidade... só que aí vem o desencanto, o tédio, a frustração.
E para não magoar (ou seria para não ter que lidar com isso?), eu prefiro bloquear, ou simplesmente ser mais frio, até o sentimento se desvanecer. Assim, eu acho que ela vai entendendo aos poucos que o sentimento acabou, dando tempo para lidar com a frustração e seguir sua vida... do que se eu rompesse bruscamente.
Eu acho que há algo de sádico em quem rompe de uma vez. Seduz para não comprovar, ainda que por medo. Eu aprendi com o cinema americano duas coisas: que discussão de bar , essa ética homem para homem, se resolve com soco na cara e quebrando tudo — como vemos em John Ford e até em Sergio Leone, no faroeste espaguete —, mas principalmente que as histórias de amor têm que ter começo, meio e fim.
Quando começa e já tem um fim, isso me deixa muito frustrado, irritado. Mas eu não transo violência. Sou adepto de transar apenas amor.