
Sim, eles estão em guerra, como diz Tolstói, e o campo de batalha é o coração do homem.
Essa luta interior, se vista em termos estritamente materiais, pode ser entendida como a disputa de energias ativas e reativas, e nossa tentativa de equilibrar os dois lados.
Nada é mais idiota e redutor da realidade do que o maniqueísmo simplista: entre bem e mal.
8 e 80: para acreditar em algo, é preciso negar outro.
Sou completamente diferente dos judeus que desacreditam em Jesus, mas acreditam em Deus. O Deus da religião, antropomorfo, não tenho dúvidas de que não existe. Agora, Jesus, tenho certeza de que existiu, só que ele não é Deus.
Para mim, se Deus existe, ele é o todo, o universo, toda a energia que compõe a criação, essa luta entre forças que, de alguma forma, se harmonizam e se expandem.
Se você estuda a história do conhecimento, não há como ignorar a Bíblia, o cristianismo. Não é porque não creio que deixarei de ler Emerson, Pascal, Santo Agostinho, Tomás de Aquino, ou estudar a escolástica.
Já fui, inclusive, a um culto, admirei o pastor Ed René Kivitz da Água Branca pregando, porque suas pregações são espirituosas e não meramente religiosas.
E eu espirituoso, não crente.
A visão estrábica e atacada que só enxerga um dos lados é a simplificação da realidade que explica Deus. É digna da preguiça intelectual e da ignobilidade de quem não sabe pensar e preenche a lacuna do desconhecido com Deus.
Não há dúvida de que, pelo conceito cristão, o conhecimento e a linguagem, como se mostra logo em Gênesis, são frutos do diabólico no sentido de serem tudo aquilo que nos aparta de Deus.
Nesse sentido, a literatura, a filosofia e meu conteúdo — eu, como figura de linguagem — sou uma figura demoníaca e diabolicamente sedutora. A reflexão que proponho desnuda a verdade e a distância do divino, mas não do Deus religioso. Agora, o Deus que é todo, o Universo, o Criador, com ele estabeleço vínculo: é união umbilical.
A arte, a criação e a beleza da linguagem são o único Deus em que acredito e a única forma de salvação. Nossa condição humana é a mortalidade; ela é que inspira a criação de grandes obras.
O paraíso cristão, da eternidade anodina, me parece mais uma forma de punição do que de recompensa. Os cristãos não suportam nem a vida mortal na Terra, e ainda pretendem viver eternamente. O que os absolve é que tudo não passa de fábula, história para crianças dormirem.