
DAVELEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BR
Feitiço do Tempo, com Bill Murray, é um filme tão clássico e icônico que foi selecionado pelo National Film Registry (Registro Nacional de Filmes) da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, por ser considerado “culturalmente, historicamente ou esteticamente significativo”.
A história parte da hipótese: e se a tese do eterno retorno de Nietzsche fosse verdadeira?
Murray fica preso no mesmo dia — o “Dia da Marmota”. Tudo se repete exatamente igual: os mesmos acontecimentos, as mesmas pessoas, os mesmos erros. No entanto, ele ainda mantém o controle sobre suas próprias ações. No início, usa a previsibilidade dos eventos para benefício próprio, para tirar vantagem. Mas, com o tempo, ele transforma a repetição em aprendizado: usa o ciclo infinito para alcançar a melhor versão de si mesmo, inspirar, ajudar os outros e, finalmente, encontrar o amor da sua vida — rompendo, assim, o ciclo da repetição.
A conclusão é simples e profunda: para alcançar nossa melhor versão, é necessário repetir as ações virtuosas diariamente, mesmo que pareçam banais. É a previsibilidade, a consistência em fazer as mesmas coisas bem feitas, que conduz à maestria e à excelência.
Ao contrário do que se imagina, o alto desempenho é banal. Não há nada de extraordinário nele — consiste em repetir tarefas ordinárias, rotineiramente, até que se tornem hábitos, e por fim, tão enraizados e automáticos, que se transformem em excelência.
Assim, se você observar meu Instagram, verá coisas simplórias — e é sempre a mesma coisa: comer bem, dormir, descansar, treinar, escrever, estudar — tudo com a pontualidade de um relógio suíço. De certo modo, minha rotina se torna um grande “Dia da Marmota”, um eterno retorno de momentos que não foram conduzidos pelo destino, mas que eu escolhi viver e definir.
E talvez, com isso, eu até tenha a ilusão de controlar o tempo. Ou melhor: pela previsibilidade dos dias, consigo transformá-la em virtude — no sentido que Maquiavel entendia. Transformar a repetição em poesia.
Se algo foge do planejado, a maestria adquirida me permite lidar melhor com a contingência, estar saudável e preparado. Ao contrário, quem não consegue ser consistente nas pequenas coisas, deixa o tempo trabalhar contra si — sendo devorado por ele, como Cronos, o deus que devorou seus próprios filhos.