
Ovídio, cujo principal tema era o amor, já naquele tempo ressentia-se de que os poemas e as cartas amorosas haviam deixado de ser uma honraria:
“Deverei aconselhá-lo a enviar-lhe também versos de amor? Que pena! A poesia não é mais uma honraria.
Elogiamos as poesias, mas são os grandes presentes que pedimos: contanto que ele seja rico, até o rústico agradará.
Nossa idade é verdadeiramente a idade de ouro: é o ouro que proporciona as maiores honras, é o ouro que propicia o amor. Sim, Homero, você mesmo poderá vir, acompanhado das Musas; se não trouxer nada, o mandarão embora, Homero.
Há, sem dúvida, mulheres cultas, porém um grupo pouco numeroso; o outro grupo não tem cultura, mas quer ostentá-la.
Faça, em seus versos, o elogio de um e de outro; e que seus versos, bons ou maus, possam agradar ao leitor pelo encanto de sua força.
A umas e outras, os versos em sua honra, compostos durante uma noite de insônia, poderão talvez substituir um pequeno presente.”
E hoje, na modernidade líquida, os versos nunca foram tão desvalorizados.
Poetas e redatores já não têm função — muito menos emprego. E, se não fossem as encomendas e as contas a pagar, talvez nem mais carteiros houvesse.
Evidentemente, como Ovídio — que dizia: “pobre amei, pobre ensino a amar” —, escrevo e faço elogio ao amor e às mulheres que o inspiram com aquilo que sei: escrever.
Porém, mais do que nunca, esta é a idade do ouro.
Meus escritos nunca tiveram agradecimento; não são vistos como honraria — justo agora que os homens e demais pessoas retrocederam ao macaco e se comunicam expressando seus afetos com frases compostas por monossílabos e emoticons.
Seria covardia falar em espiritualidade e criatividade — algo que escapa ao banal.
Mas atualmente a banalidade se impõe no cotidiano das pessoas como um imperativo categórico.
Não tenho dúvidas de que, fora das minhas páginas, as pessoas sobre quem escrevi ou homenageei jamais lerão algo semelhante.
Disso eu tenho certeza.
E não posso deixá-las sozinhas — não posso parar de segurar-lhes as mãos —, pois, como crianças birrentas, infelizmente começam a fazer cagadas.
Entregam-se à derrota dos alimentos hiperpalatáveis, apagam suas contas do Recanto, deixam de cuidar do corpo e do intelecto, de escrever…
E aí já não lhes resta outra opção a não ser aceitar como parceiro alguém que as acompanhe em banalidade.
Meu papel, escrevendo, é resgatar essas almas dessa areia movediça niilista do ressentimento.
Se eu as deixar à deriva, acabarão como todas as outras.
E então chega-se ao ápice: criar um perfil anônimo — igual a esse nefasto “Analise Invertida da Escrita” — que transformou o próprio ressentimento em forma de expressão.
Ela já não escreve mais criativamente algo que cria, mas internaliza seu rancor para falar mal de quem o faz.
E mais: não se trata de artistas consagrados, mas simplesmente de recantistas anônimos.
Essa atitude, até na pusilanimidade, revela uma pequenez de espírito — o símbolo mais arrebatador da nossa sociedade utilitarista e mesquinha dos últimos homens.
Gente que, em vez de criar, busca chamar atenção pela espetacularização da própria derrota, criticando justamente quem tem a coragem e o arroubo de fazê-lo.
Aquelas que não valorizam meus versos merecem, cada vez mais, perfis como esse — e cada vez menos, aqueles como os meus.