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DAVE LE DAVE
SIM, ELE MESMO
Textos


SE EU NÃO FALAR DE AMOR, FALAREI SOBRE O QUÊ?

 


 

DAVELEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BR

 



O POETA E A IDADE DO OURO

Ovídio, cujo principal tema era o amor, já naquele tempo ressentia-se de que os poemas e as cartas amorosas haviam deixado de ser uma honraria:

 

“Deverei aconselhá-lo a enviar-lhe também versos de amor? Que pena! A poesia não é mais uma honraria.

Elogiamos as poesias, mas são os grandes presentes que pedimos: contanto que ele seja rico, até o rústico agradará.

Nossa idade é verdadeiramente a idade de ouro: é o ouro que proporciona as maiores honras, é o ouro que propicia o amor. Sim, Homero, você mesmo poderá vir, acompanhado das Musas; se não trouxer nada, o mandarão embora, Homero.

Há, sem dúvida, mulheres cultas, porém um grupo pouco numeroso; o outro grupo não tem cultura, mas quer ostentá-la.

Faça, em seus versos, o elogio de um e de outro; e que seus versos, bons ou maus, possam agradar ao leitor pelo encanto de sua força.

A umas e outras, os versos em sua honra, compostos durante uma noite de insônia, poderão talvez substituir um pequeno presente.”

 


 

A ERA DO DESENCANTO

E hoje, na modernidade líquida, os versos nunca foram tão desvalorizados.

Poetas e redatores já não têm função — muito menos emprego. E, se não fossem as encomendas e as contas a pagar, talvez nem mais carteiros houvesse.

 

Evidentemente, como Ovídio — que dizia: “pobre amei, pobre ensino a amar” —, escrevo e faço elogio ao amor e às mulheres que o inspiram com aquilo que sei: escrever.

 


 

A IDADE DO OURO, A IDADE DO BANAL

Porém, mais do que nunca, esta é a idade do ouro.

Meus escritos nunca tiveram agradecimento; não são vistos como honraria — justo agora que os homens e demais pessoas retrocederam ao macaco e se comunicam expressando seus afetos com frases compostas por monossílabos e emoticons.

 

Seria covardia falar em espiritualidade e criatividade — algo que escapa ao banal.

Mas atualmente a banalidade se impõe no cotidiano das pessoas como um imperativo categórico.

 

 


 

O DEVER DO POETA

Não tenho dúvidas de que, fora das minhas páginas, as pessoas sobre quem escrevi ou homenageei jamais lerão algo semelhante.

Disso eu tenho certeza.

 

E não posso deixá-las sozinhas — não posso parar de segurar-lhes as mãos —, pois, como crianças birrentas, infelizmente começam a fazer cagadas.

 

Entregam-se à derrota dos alimentos hiperpalatáveis, apagam suas contas do Recanto, deixam de cuidar do corpo e do intelecto, de escrever…

E aí já não lhes resta outra opção a não ser aceitar como parceiro alguém que as acompanhe em banalidade.

 


 

RESGATAR DA AREIA MOVEDIÇA

Meu papel, escrevendo, é resgatar essas almas dessa areia movediça niilista do ressentimento.

Se eu as deixar à deriva, acabarão como todas as outras.

 

E então chega-se ao ápice: criar um perfil anônimo — igual a esse nefasto “Analise Invertida da Escrita” — que transformou o próprio ressentimento em forma de expressão.

Ela já não escreve mais criativamente algo que cria, mas internaliza seu rancor para falar mal de quem o faz.

E mais: não se trata de artistas consagrados, mas simplesmente de recantistas anônimos.

 


 

O SINTOMA DOS ÚLTIMOS HOMENS

Essa atitude, até na pusilanimidade, revela uma pequenez de espírito — o símbolo mais arrebatador da nossa sociedade utilitarista e mesquinha dos últimos homens.

 

Gente que, em vez de criar, busca chamar atenção pela espetacularização da própria derrota, criticando justamente quem tem a coragem e o arroubo de fazê-lo.

 

Aquelas que não valorizam meus versos merecem, cada vez mais, perfis como esse — e cada vez menos, aqueles como os meus.

 

 

ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL)
Enviado por ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL) em 24/10/2025
Alterado em 24/10/2025
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