
Depois do martírio que o Ministro Fux submeteu não só seus colegas de corte, mas todos nós que acompanhávamos ansiosos pela condenação do golpista Jair Messias Bolsonaro, de um voto de 12 horas para concluir, por uma decisão, digamos, tão sui generis quanto o fato dele usar peruca, pela absolvição do réu e condenação do mordomo, mero assistente de ordens.
Ele, que sempre foi visto como punitivista, negando habeas corpus para crimes de fome, de quem roubou pacote de bolacha — se ele é tigre contra os mais pobres, para os poderosos ele é two two K.
Esse sujeito não pede venia para o ridículo. Ele não pode ver uma vergonha que não queira passá-la de qualquer jeito. Ele vê a linha do ridículo e dá um passo à frente, faz um movimento em direção à vergonha alheia e ao ridículo. O ministro exige seu direito à ampla defesa do ridículo e contraditório.
E agora, no mea culpa que ele diz ter errado no seu voto, na verdade ele, lembrando a retórica de um Pacheco de Eça de Queirós, fazendo citações de juristas que achou pelo Google — e sem ironia, citando a primeira frase que aparece nas buscas —, tudo para fingir a erudição que não tem, ele diz que sua covardia e atentado contra o estado de direito é coragem, e que a covardia seria dos seus pares, que ele, como ser iluminado, só ele enxergou, junto com os juristas de aluguel, que como sofistas advogam por quem paga mais — como Yves Grava, um bolsonarista e saudoso da ditadura, travestido de terno e gravata.
E eis que a nova estratégia do ministro da peruca é ir para a segunda turma, com que direitos escuros será? Com certeza não é para formar maioria em prol dos seus direitos escusos dos poderosos, para solapar o estado de direito, mas ele deve sentir saudades de viajar à Disney com Nunes Marques e André Mendonça, ambos indicados por Bolsonaro e que “coincidentemente” nunca tiveram um voto que o prejudicasse.
Ora, como para ser ministro não é preciso necessariamente ser advogado ou ter OAB, basta ser indicado pelo presidente da República desde que tenha reputação ilibada e notório saber jurídico, alguns recantistas, que carecem tanto de coerência quanto têm amor por Bolsonaro, poderiam fingir amizade com Lula só para ver se ele os indica para o Supremo, tudo para proteger Jair Bolsonaro e os golpistas.
Porém, você vai me retrucar, com razão: mas eles têm reputação ilibada e notório saber jurídico?
Ao que eu respondo com uma verve retórica digna do Fux: se o Fux com aquele voto diz ter reputação ilibada e notório saber jurídico mesmo após desse estrupo constitucional e jurídico, qualquer outro cidadão, por mais parvo, sem princípios e desprovido de cabelo que seja, também pode sê-lo.