AS ORIGENS DO RECANTISTA ZEZÉ CAMADA DE OZÔNIO

Zezé é um brasileiro que nos enche de orgulho — justamente por não ter nascido oriundo deste país, mas sim de um daqueles países do leste europeu que já foram parte da antiga União Soviética e cujo nome é difícil até de pronunciar.
Porém isso não impeliu de se tornar um brasileiro com aquele patriotismo inflamado e delirante, digno de um Policarpo Quaresma moderno.
Eis, portanto, uma breve síntese da vida deste ilustre recantista, para melhor situar o leitor.
Zezé nasceu em um país do leste europeu — talvez uma ilha distante, que tecnicamente ainda é considerada parte da Rússia. Uma pequena cidade, de densidade demográfica ínfima: apenas quinze milhões de habitantes, espalhados por cerca de 100.537 km².
Os passeios pela praça eram como o trem da Sé em São Paulo: um aperto quase místico. Mas nem mesmo essa compressão existencial foi capaz de tolher a imaginação de Zezé, cujo nome original era Zelinskinovitch, filho de Zelinsk.
Porém, em um gesto poético e tropical, ele resolveu adotar o nome “Zezé” — em homenagem à música Evidências, de Chitãozinho e Xororó.
Na época, sem muita familiaridade com a língua portuguesa, achou que era uma canção de Zezé Di Camargo e Luciano. Um equívoco totalmente compreensível, quase metafísico.
Seu pai era um apaixonado pelo Brasil, graças à Copa de 62.
Infelizmente, por falta de informação — e talvez de um bom mapa —, acabou comprando uma camisa da Venezuela, acreditando ser da seleção brasileira.
O pequeno Zezé, com orgulho patriótico e inocência soviética, vestia a camisa, beijava o escudo e gritava “Brasil!”… até que um professor de geografia lhe revelou a dura verdade.
A partir daquele dia, Zezé passou a nutrir ódio eterno pela Venezuela e um amor ainda mais fervoroso pelo Brasil — e, por tabela, um entusiasmo quase religioso pelo capitalismo e por todos que vestiam farda.
Como vivia sob uma ditadura, esse amor o inspirou a sonhar com a fuga para as terras tupiniquins — tal qual Ulisses tentando regressar à sua Ítaca.
Zezé amava tanto o Brasil que, mesmo no exílio gelado, inventou uma receita de feijoada de strogonoff, acompanhada de farofa feita com pão triturado e milho hidratado em vodka.
Aprendeu espanhol achando que era português, num curso socialista equivalente ao Telecurso 2000.
Aos poucos, foi se preparando para sua grande odisseia.
Seu intento se concretizou quando conseguiu uma carona clandestina num navio que atracou na praia de Santos.
Ao desembarcar, proferiu, num espanhol com sotaque indecifrável:
“¿Comos estas? Yo soy Zezé. Num hablo muiyon bien el português... Gostaria de saber cómo llegar en São Paulo.”
(E aqui, leitor, imagine a cena em câmera lenta, sob uma luz amarelada de porto e com um acordeão tocando ao fundo.)
Em um estratagema digno de Ulisses, Zezé escondeu-se em um caminhão cujo destino era uma fábrica de tapetes.
Permaneceu ali, como um Hugo Cabret da vida real, por noventa dias, até que um dia se esqueceu de arrumar sua cama improvisada com tapetes e foi descoberto.
Mas sua história — contada com lágrimas, sotaque e bravura — comoveu tanto os operários que o deixaram ficar.
Mais ainda: ofereceram-lhe um emprego.
Fruto de sua ética protestante e de um espírito capitalista inabalável, que deixaria orgulhoso Max Weber, Zezé trabalhou, trabalhou e trabalhou.
Subiu de cargo, tornou-se gerente e, num arroubo de civismo, denunciou os antigos donos por apoiarem a luta armada. Se isso foi verdade ou não, ou se a prova foi armada pelo gênio intempestivo de Zezé, preferimos deixar na avaliação do leitor…
Assim, conquistou a simpatia do governo e — por meios que a prudência recomenda não detalhar — herdou a fábrica de tapetes.
Hoje, por humildade (ou estratégia), Zezé diz apenas que herdou a fábrica de um tio.
Mas nós, leitores atentos, sabemos a verdade.
Sua escrita é um fenômeno linguístico: mistura a suavidade do português com o rebuscamento filológico do dialeto russo.
O resultado é algo parecido, mas não exatamente, completamente diferente do português.
Ou melhor: é mais do que português — é um idioma híbrido, poético, improvável.
Eu me surpreendo e me regozijo sempre que leio um comentário desse recantista cheio de verve literária — um homem que traduziu a riqueza brasileira do repente e do cordel com a robustez intelectual do leste europeu.
É uma história realmente impressionante, inspiradora e, acima de tudo, tragicômica.
Porque, no fundo, talvez o Brasil precise mesmo de um novo tipo de herói:
um que confunda a Venezuela com o Brasil, mas que, mesmo assim, continue acreditando — com fervor barroco e alma de tapete — que este é o melhor país do mundo. E quem irá desacreditá-lo?!